Esquizoanálise VIII
As tentativas frustradas de controlar esses fluxos esquizos é sempre a
mesma. Colocar o esquizo no bom lugar onde ele possa falar como todo mundo,
repetir o enunciado que passa para o lado das interpretações. Decalquear,
manchar o mapa, engastar o desejo em algum lugar previamente pensado. Por isso
a esquizoanálise se opõe à psicanálise. Quais são os seus objetivos?
Tudo deve começar por uma reversão, uma reversão mais sutil ainda, que
permita olhar o outro lado do inconsciente. Se prestarmos atenção ao
inconsciente esquizo, já não caberá mais interpretação alguma. Não sobrará um
Édipo sequer para ser analisado, tampouco uma estrutura a ser encontrada. Esse
não lugar pode ser a terra povoada de eternidade que os xamãs do México Antigo
acreditavam se encontrar por toda parte. A eternidade está aqui, ali e acolá. A
identidade pessoal que não permite enxergá-la. É também o território a-subjetivo,
solo nômade das forças que violentam a consciência e incita o pensamento.
Libertar as forças aprisionadas do inconsciente, agitar os devires, esse deve
ser o começo de uma esquizoanálise. Análise de um inconsciente sem Édipo, órfão
e ateu. Substituir o neurótico do divã pelo esquizo da montanha sob as
estrelas. Fazer de volta a viagem mais temida pelo socius, “viagem imóvel em
intensidades sobre o corpo sem órgãos”, lá onde se encontra o pólo da libido,
como formação molecular em escala submicroscópica, por detrás das formações
molares na escala dos conjuntos orgânicos e sociais. Não é nessa superfície
molar que devemos concentrar a nossa clínica, a menos que desejemos cair na
paranoia. O nosso objeto de análise se encontra um pouco mais abaixo, nas
conexões sem fim, nas disjunções inclusivas, nos agenciamentos do desejo.
Encontrar as linhas de fuga, promover mil bifurcações à maneira de Kafka.
Saídas para o Fora do senso comum e do bom senso. “O desejo é máquina, síntese
de máquina, agenciamento maquinístico, máquinas desejantes”[1].
Fazer funcionar o rizoma que continua a rosnar, a zumbir até o limite da
ruptura. Não é preciso enfrentar o poder. Esse é o equivoco das forças
revolucionárias que, acossados por um desejo fascista, acabam por trair os
ideais revolucionários. Há um tipo de revolução mais segura, trata-se dos
devires revolucionários imperceptíveis. Uma revolução que se inicia no mesmo
ponto em que o devir-sombrio tem a sua precipitação. Por isso, é preciso ficar
atento a essa coisa que nos assombra e nos fascina, o desejo de poder, como
advertiu Foucault. Não perder de vista que o capitalismo se alimenta da mesma
maneira que a esquizofrenia, ou seja, dos fluxos descodificados. Com uma
diferença, o capitalismo se vale dos fluxos esquizofrênico para o lucro. Eis a
tarefa da esquizoanálise, uma análise das circulações das forças ainda em
estado molecular com seus agenciamentos e investimentos. Exaltar os processos
de desterritorialização contínua das estruturas molares, produção de ilhas desertas
no continente familiar-edipiano. As máquinas desejantes e esquizofrênicas da
esquizoanálise contra a tragédia edipiana. “Cada um de nós conhece tais
transposições de limiar subjetivo pela atuação de um módulo temporal
catalisador que nos mergulhará na tristeza ou, então, em um clima de alegria e
de animação.”[2]
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