Esquizoanálise - VII
Há uma ligação direta entre a máquina e o desejo, “a máquina é
desejante e o desejo, maquinado”.[1]
A máquina funciona como acessório do desejo, a vértebra de um corpo sem órgãos.
É preciso sair do mecanicismo e do vitalismo para se fazer uma verdadeira
política de potências. Sair dos fenômenos de massa ou de conjuntos molares,
porque tanto um quanto o outro “remetem do exterior um ao outro”. “E, mesmo quando
eles se distinguem e se opõem, é apenas como dois sentidos numa mesma direção
estatística.”[2]
O alvo da esquizoanálise é sair dos organismos como máquinas para
alcançar as máquinas nos organismos. Saber como isso funciona no limite entre o
anímico e o somático, ou seja, naquilo que Freud percebeu de início. Como dizem
Deleuze/Guattari, “na outra direção mais profunda ou intrínseca das
multiplicidades, há compenetração, comunicação direta entre os fenômenos
moleculares e as singularidades do vivo”.[3]
Um retorno a Freud naquilo que pode unir o homem e a natureza, a partir
da leitura deleuziana da teoria das pulsões onde o instinto (pulsão) de morte
funciona como presentificação do devir. As pequenas formações se encontram
presentes em todos os órgãos num momento em que ainda não há tempo para
formações estatísticas, cuja enumeração é impossível, consistindo, portanto, em
multiplicidades. Nem “unidade estrutural, nem ligações mecânicas preformadas”,
funcionando em um nível de formação que ainda se confunde com as moléculas.
Em síntese, a diferença que interessa aos autores para se fazer outro
tipo de análise da sociedade “está entre as máquinas molares de um lado, sejam
elas sociais, técnicas ou orgânicas, e do outro as máquinas desejantes, que são
da ordem molecular”.[4]
O que são as máquinas desejantes? É mais fácil falar do modo de seu
funcionamento, “como isso funciona”, para substituir por “o que isso quer dizer
da psicanálise”. As máquinas desejantes funcionam por falhas,
operando por ligações não localizáveis e
localizações dispersadas (...) elas procedem por cortes e fluxos associativos e
objetos parciais, induzindo sempre a distância conexões transversais,
disjunções inclusivas, conjunções polívocas, produzindo, assim, extrações,
separações e restos, com transferência de individualidade, numa esquizogênese
cujos elementos são os fluxos-esquizos.[5]
A partir do acaso ou da inorganização do real do funcionamento das
máquinas desejantes, é que se organizam as grandes estruturas molares. Dentro
da cadeia significante, há uma passagem do molecular ao molar. A cadeia
significante, nesse sentido, se baseia em uma cadeia a-significante.
No fundo de tudo que se forma, há uma célula esquizofrênica, as moléculas
esquizo, suas cadeias e seus jargões. Há uma esquizofrenia na biologia, uma
microfísica por trás de todo revestimento molar. Como se pôde fazer uma teoria
biológica da esquizofrenia sem levar em conta as conexões maquinísticas de
ordem molecular? Da mesma forma, a psicanálise tentou interpretar os delírios
sem considerar suas repartições “em mapas de intensidades sobre a molécula
gigante do corpo sem órgãos, e as acumulações estatísticas que formam e
selecionam os grandes conjuntos”.[6]
Daí, dizer-se que o delírio é universal; deliram-se grandes conjuntos
universais, mas as figuras da história que recobre o delírio se encontram
imantadas de singularidades pré-subjetivas. Dentro de cada homem, existe um
inconsciente que se assenta sobre a mesma célula gigante do corpo sem órgãos.
Há um limite insuportável entre as máquinas, é o limite dos desarranjos que
causam as escapadas furtivas dos fluxos livres. A natureza lida bem com essa
realidade; por essa razão, tudo na natureza se encontra em acontecimento, tudo
está no indefinido dos devires. Só o homem, dotado de consciência, se encontra
nessa luta incessante entre o fixo e o contínuo.
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