Conclusão - II

A questão maior é fundamentalmente ética, não como temática abstrata, mas como reconsideração da produção de sentido humano. É urgente resgatar o ponto de vista global, que compreende não a globalização, mas o fato de que nada mais se poderá fazer que não leve em conta a produção de subjetividade global que inclui a cultura, a natureza e os modos de subsistência.
O abismo que se abriu entre homem e natureza tem demonstrado a possibilidade real de se arrastar a vida individual para seu centro. Dessa maneira, o conjunto da obra pesquisada nos leva a pensar na emergência do mundo, do mundo que se perdeu. A filosofia de Deleuze/Guattari nos mostra que as condições de nossa época são extremamente complexas, o que leva o pensamento clássico a seu limite. Ou seja, não há fundamento para um mundo que se perdeu, um mundo que não respeitou as regras do fundamento, do fixo e do suspenso.
Com a morte de Deus, a morte tardia do Pai, a desordem da família, a nova realidade semovente das fronteiras do Estado-nação na ordem da globalização – o descentramento do mundo –, a derrocada dos valores religiosos, que se transformam cada dia em valores de mercado, tudo isso, incluindo as drásticas alterações na natureza, parece entoar o mesmo cântico, o Uno não existe. Conforme Alan Badiou afirmou em Deleuze: o clamor do Ser, “há apenas multiplicidades atuais, e o fundamento é vazio”.[1]
Para a emergência desses dias velozes, carecemos de uma novidade, de um novo método e de um pensamento que siga um método que suporte a mobilidade constante. Na política, precisamos da necessária consideração pelo que há de fluido no interstício dos grupos já formados por bandeiras partidárias. Nessa consideração, não devem ficar de fora o judiciário, a escola, a igreja, o quartel da polícia, mas, sobretudo, a casa. Um método que não deixe de levar em conta a maior de todas as feridas narcísicas de nosso tempo, não somos determinados pela bela razão; somos determinados pelo desejo inconsciente, que é, ao mesmo tempo, molar e molecular. E pode ser também ao mesmo tempo fascista, tirano e/ou de afirmação do bom e do belo.
Esse acontecer pode estar em qualquer instância social e em todo momento da história. Há uma máquina burocrática se movendo junto a uma máquina abstrata de codificação de fluxos. Codificação na forma de produção de subjetividade e territorialização na forma de organização das formas. Ambos os processos tendem a criar estratos e a manter a ordem que segue numa direção determinada.



[1]  BADIOU, A. Deleuze: o clamor do Ser. Rio de Janeiro: Zahar. Tradução de José Thomaz Brum, 1967, p. 68.

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