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Amor ao próximo possível

Vimos que a impossibilidade do amor ao próximo consiste da intolerância radical do ser humano a qualquer alteridade vinda por parte do próximo. Não suportamos o excesso de gozo do próximo, não aceitamos conviver com a diferença do próximo. É tarefa da moral de rebanho erradicar as diferenças que escapam ao ponto de tornar o “próximo” o mais próximo possível a fim de torná-lo semelhante. O que confirma a impossibilidade de amar o próximo ainda vivo. O amor ao próximo só é possível com o “próximo morto”, depois de erradicar a diferença e proclamada a fantasia do rebanho, quando a alteridade estiver silenciada no interior do próximo, então se obtém a forma de “amor” mais condicional existente, “amor de rebanho”. “Amo-te por seres um como eu mesmo sou”.  O silêncio do rebanho é para evitar o confronto com a verdade traumática, do fluxo louco que não se pode registrar e codificar. Verifica-se uma longa sucessão de medidas pedagógicas e disciplinares para se confirmar um rebanho: uma ...

Amor ao próximo

Compreendemos melhor por paradoxos, por isso vamos expor duas sentenças contrárias para fazer o efeito necessário: o “ama ao teu próximo como a ti mesmo” e “o inferno é o outro” que se conflita diretamente com a inocência da primeira. Não vamos ficar apenas com as idéias de cada sentença, vamos pensar na possibilidade do encontro com o “próximo” como o Real impossível, ou seja, o próximo é o impossível. Slavoj Zizek, seguindo Lacan, diz que o próximo é o Real e que o encontro com o Real é impossível, logo, “o amor ao próximo” é impossível. Isso porque o encontro com o Real é da ordem de um trauma que todo mundo quer evitar. Vamos pensar que, para (com)viver com o próximo em amor , seria necessário amá-lo como ele mesmo é, aceitá-lo como todos os seus vícios, seus hábitos e suas chatices.  Imagina um “próximo” que fuma vivendo próximo de seu “próximo” que abomina o cheiro de cigarro. Por aí, já se percebe que tal encontro é traumático. Todo mundo quer viver em segurança, no soss...

Amor

Platão diz pela boca de Sócrates, pelo lado humano, que o amor é por natureza pedinte, faltoso, mendigo. Por outro lado, o amor tem características divinas: o amor é expediente, sagaz, é preenchimento e exuberância. O amor é justo assim, quando os amantes estão apaixonados é como se se encontrassem (entheos) cheios de deuses, seria como se de nada tivessem falta. Quando cheios de amor (eros), os amantes não se dão conta da ressaca vindoura, muitas vezes, ela bate à porta antes do previsto. É que o nome desse amor, como todos os nomes, é uma representação arbitrária de um efeito de preenchimento químico. A emoção do amor resulta da afecção química da  fenilatilamina . Ela tem duração curta, dura o seu próprio tempo podendo terminar subitamente. Tanto o sentimento amoroso quanto a química que o causa são fenomenos dissimétricos: um dos amantes há de ficar na mais profunda penúria, pobreza, pedinte, como diria Platão. Quando o amor é falta e penúria é porque o amado não tem o obje...