O desejo de interagir com o mundo — por meio da cultura, da literatura, do afeto ou da sensualidade — parece, hoje, cada vez mais vigiado. Como se a própria vitalidade da vida, em sua pluralidade de expressões, fosse vista com desconfiança. Em meio à complexidade da existência, esse impulso criativo e transformador encontra obstáculos sutis, impostos por estruturas que buscam domesticar o desejo e restringir a liberdade de manifestação. Michel Foucault, se estivesse entre nós, talvez reconhecesse em nosso tempo a materialização mais intensa de sua ideia de “sociedade de controle”. Certas figuras públicas, investidas de autoridade institucional, ocupam posições estratégicas em áreas sensíveis — como educação e família — e, por meio de discursos normativos, reconfiguram os sentidos do desejo, da produção intelectual e da experiência afetiva. Em gestos simbólicos e políticas concretas, essas intervenções deslocam o desejo para o campo da moralidade, atribuindo-lhe significados que o dista...