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Mostrando postagens de 2020

Outis - ninguém

Literalmente, "ninguém" é um substantivo masculino da língua grega, mencionado nos comentários de Haroldo de Campos sobre a "Ilíada" de Homero, especialmente no contexto da falta de hospitalidade dos Cíclopes. O viajante estrangeiro era tratado como um "ninguém", a-pátria, sem significado social, valor ou dignidade humana, invisível aos olhos daqueles que deveriam acolher. Vale lembrar que, na mitologia grega, as personagens e suas atitudes frequentemente representam as forças que atuam nos indivíduos e na sociedade. Essas dinâmicas se manifestam claramente nos dias atuais, quando refugiados de guerras, epidemias ou fome são tratados como "NINGUÉM" nos países que, muitas vezes, são os mesmos que contribuíram para suas adversidades. Um exemplo chocante dessa desumanização ocorreu em 2017 em Veneza, quando turistas filmaram um refugiado africano se afogando no Grande Canal e não ofereceram ajuda. Para eles, ele era simplesmente "NINGUÉM"....

O inferno

Estamos imersos em uma pandemia. O que parecia distante, quase uma relíquia medieval, tornou-se uma realidade palpável entre nós. Após um dia longo e estranho, o pôr do sol trouxe consigo uma transformação na ordem das coisas. As ruas, antes repletas de movimento, agora se encontram quase desertas. Apenas os animais de rua, como cachorros vira-latas perfeitamente adaptados à vida urbana e gatos noturnos, perambulam livremente. A praça, envolta numa neblina solitária, contrasta com as cores vivas das flores que exalam diversos perfumes. Ao cair da noite, a "dama da noite", com seu aroma adocicado, reina soberana nos espaços vazios deixados pelos humanos. Seu perfume é o dominante nas noites frias, antecedendo o inverno na Serra, como se fosse o sussurro da natureza reivindicando seu espaço. Caminhar solitário nestes tempos tem um sabor paradoxalmente delicioso, quando o medo da contaminação levou as pessoas a abandonarem as ruas, refugiando-se em suas casas. Descobrimos, de...

As flores

As flores são como em - Alice através do espelho - elas realmente podem falar, mas só o fazem com pessoas com quem valha a pena.  Talvez elas falem mais com as crianças e com os animais. E um pouco diferente, mas falam com os loucos.  Sim os loucos falam com as flores numa linguagem que elas entendem. As flores e os Deuses entendem o que os loucos dizem. É preciso ficar louco para entender as flores.

Vírus

Um organismo é sempre uma condição múltipla de engendramentos possíveis. No entanto, ao se constituir como organismo, ele se manifesta como um múltiplo de uma ou duas unidades. Por outro lado, a vida não se limita a essa aritmética; ela se apresenta como uma multiplicidade infinita de possibilidades, não numéricas, mas qualitativas. Trata-se, portanto, de uma equação N-1, ou seja, uma singularidade subtraída do todo. Essa perspectiva ajuda a elucidar a dificuldade no enfrentamento de vírus e bactérias. Enquanto o combate a organismos que se subdividem em múltiplos estatísticos (2; 4; 6; 8 etc.) permite à ciência alcançar conquistas temporárias, a vida, em sua essência, retorna incessantemente como multiplicidade infinita. A ciência, conforme concebida, ocupa-se predominantemente com o "um" e o "dois", ou seja, com o sujeito e o objeto. Mas como ela poderia abarcar uma multiplicidade infinita, que, por natureza, é não mensurável? Concluímos, por fim: ou transformamos...

Dilema do pão

Hoje, pela primeira vez neste ano, fui à padaria. Fui cedo para evitar o aglomerado de gente na borda do balcão, pessoas ávidas por pães quentes. Tinha apenas uma senhora, mas ela era o prenúncio das velhas coisas. Já havia visivelmente irritado a funcionária que atendia ao balcão, e a mim também. - Você tem desse, um pouco mais claro? Perguntou apontando para um tipo de pão que é naturalmente escuro, feito com açúcar mascavo. - Se você tiver desse, procure um menor, menos pesado, com menos massa. Continuou ela articulando sinônimos e adjetivos sobre o mesmo pão. Não muito cozido, mas que não seja cru, nem de casca grossa – Daí em diante, a dita senhora começou a contar uma história sobre o tipo de pão que o marido gosta, mas dando características do formato, cor, tonalidade, sabor aroma e outros atributos do pão em questão. A menina que atende, já demonstrando impaciência do lado de lá, tentava em vão fazer a mulher decidir sobre o pão. Eu, já frustrado por pensar que se...