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Ressentimento

Imagine uma pessoa que não pode esquecer, uma pessoa cuja memória está sempre presente embotando a consciência. Tal pessoa não consegue digerir as lembranças que se presentificam na consciência. A memória é um reservatório de experiências, enquanto que a consciência é “lugar” de encontro de forças ativas/reativas, forças que agem e forças que reagem aos estímulos. São encontros de forças que fazem da consciência um aparelho voltado para fora, para o ambiente vivido. Toda vez que uma força age sobre outra força, essa última reage obrigando o pensamento a pensar. Na verdade, o jogo de forças que se trava na consciência deveria causar uma violência que obrigasse a fazer o pensamento funcionar, mas não é sempre assim que sucede. O pensamento não é natural, pensar exige esforço e abnegação. Vivemos em um tempo onde os pensadores são cada vez mais raros. Pensa-se que pensa e é possível que a grandiosa massa de indivíduos venha a morrer sem nunca pensar. Se a educação prima pela memória, pe...

Culpa

Todos nós já ouvimos a expressão “errar é humano...”. Só não nos damos conta de que tal sentença - dita por alguém que deseja se reconciliar com a consciência - de nada vale quando percebe que errou ou, como se diz, “pisou na bola” com alguém que não merecia. Neste momento em que escrevo, alguém deve estar magoando, decepcionando, traindo ou ferindo de algum modo o sentimento de um outro. E neste caso, de nada nos vale a ideia de que “errar é humano”. Nos sentimos culpados e não é uma culpa falsa, é real. A culpa falsa tem origem em modos de subjetivação, são formas civilizatórias de interiorizar o sentimento de juízo moral. Tal interiorização, faz-nos sentir como se tivéssemos cometido um pecado que nos arrastasse para o inferno. A civilização faz uma barganha com esse tipo de sentimento, - a sensação de uma dívida impagável. Faz sujeitos submissos e carentes de perdão, depois, vende um balsamo do suposto perdão. Se funcionasse, bastaria um único suplício. Mas como é abstr...