Não costumamos pensar no fato de que ao escolhermos estar em um lugar, ao mesmo tempo, não estaremos em tantos outros. Isso porque não podemos estar em dois lugares no mesmo instante. Perdemos sempre quando escolhemos, sem ter a certeza de que a escolha que assumimos seja a melhor. A princípio, nenhuma escolha é boa. Por isso, viver é um lance de dados. E o bom jogador é o que lança o dado sem desejar o controle do resultado do jogo. Apenas lançamos o dado e assumimos o jogo sem lamentar o resultado. A vida é para ser afirmada, tal qual ela se apresenta. Em cada lance uma infinidade de possibilidades se abre, mas também infinitas outras se fecham. Se a vida pode ser comparada a lances de dados, então, há de se saber, de início, que o dado tem seis lados, mas é apenas um dos lados que se faz resultado ao ser lançado. Perdemos cinco possibilidades para recebermos, ao acaso, uma única para ser afirmada. O sentido da vida não nos é dado. É preciso produzir sentido para continuar vi...
A ideia do livre arbítrio – ou crença – só prova que nossa liberdade é somente para termos tais ideias. Mas não somos livres da vontade que nos faz ter ideias e crenças. A vontade não é livre no homem. E ela não é causada a não ser por outra vontade de vontade. Sempre que o indivíduo sentiu, pensou e agiu, alguma coisa sendo a causa dessa cadeia de efeitos já ocorreu nele sem a permissão que a liberdade daria. A vontade é da ordem anterior aos fenômenos que aparecem no corpo, mas bem após o impulso da vontade. Temos consciência de que essas coisas acontecem em nós, mas não sabemos nada a respeito da causa primeira que se remete a outra causa até ao infinito. O fato do homem se dizer livre é prova de sua ignorância dessa causa que antecede aos efeitos. Desconhecemos as causas da vontade, apenas sabemos que temos vontade e, que essa vontade move nossos órgãos e nosso corpo em busca das coisas que dizemos desejar. Podemos optar entre uma coisa e outra, mas não podemos...
Pulsão de vida, pulsão de morte, para nós são adjetivos que conformam a natureza da pesquisa clínica: só existem pulsões. Vamos abandonar esse percurso para entrar no que pertence à filosofia propriamente. Ou, quando estivermos falando em linguagem que comporta conceitos da psicanálise, é porque a filosofia de Deleuze/Guattari está extraindo dela uma potência filosófica. Despedimo-nos dos dualismos, pulsão de vida e pulsão de morte, natureza e sociedade, Isso e eu, energia livre e energia ligada, processo primário e processo secundário, pulsões sexuais e pulsões do eu, entre outros. Quando nos referirmos a esses pares, estaremos fazendo sempre a partir das críticas que se encontram em O Anti-Édipo e Mil Platôs . Deleuze/Guattari advertem para o fato de que a separação homem/natureza e sociedade/natureza serve de base ao pensamento que afirma o homem como o rei da natureza. Portanto, o homem natural só se tornará viável se controlar a natureza em geral e sua própria natureza, em det...