Esquizoanálise III

A leitura psicanalítica sobre a “proibição” desenvolveu duas falsas crenças: a primeira é o fato de se criar, no limite, “uma matriz ou uma origem”.[1] O que nos leva a pensar que a sociedade primitiva vivia sob ligações incestuosas generalizadas antes de haver a proibição, o que faz da psicanálise uma tese evolucionista. E, em segundo lugar, “fazer do limite uma função estruturante”,[2] como se entre o desejo e a lei houvesse uma relação fundamental por resguardar a transgressão. Nem uma coisa nem outra: o mito do incesto fala da emergência de uma ordem que ele explica e conta, como se fosse a verdadeira história da humanidade.
Trata-se, em verdade, da passagem de um estado de organização dito primitivo, da consanguinidade, para o estado, dito civilizado, da cultura. De certa forma, o texto Totem e Tabu é um apanhado evolucionista, pois trata de uma família de animais. Instituir uma lei de separação pelo incesto significa arrancar os indivíduos de um estado de natureza com suas leis de funcionamento, de pura etologia (consanguinidade), para as leis de parentesco cultural.
Fundação primitiva da separação homem e natureza, em que a interdição do incesto aparece como aquilo que distingue o fato “natural” da consanguinidade do fato “cultural” da aliança. A cultura está fundamentada na aliança e, portanto, na interdição do incesto. Na proibição, há essa relação com a formação de uma civilização que começa com o tabu do incesto. Ou uma passagem da zoofilia para uma relação de parentesco. É o homem enquanto súbdito, definitivamente no simbólico. Mas em relação ao desejo, “o desejado é o fluxo germinal ou germinativo intenso, onde se procuraria em vão por pessoas e mesmo por funções discerníveis como pai, mãe, filho, irmã”.[3]
O desejo originário não deseja ninguém, as pessoas e as leis que as separam são colocadas no lugar de objetos para ser desejadas; isso é uma estratégia política, tomando-se o mito do incesto como tese para a condição do desejo. Seria o mesmo que tomar o mito da expulsão do Éden como a narrativa do desejo de eternidade: o homem deseja a vida eterna porque a perdeu no ato de ingerir o fruto proibido da árvore da (com) ciência do bem e do mal.
Coloca-se teologicamente um objeto no além para ocultar o fluxo germinal que se encontra por trás do fruto desmensurado. Desse modo, pegam-se pessoas definidas para ocupar os lugares na mitologia. Esquece-se de que a lei de proibição do desejo passa por fora da realidade original do desejo, pois o desejo nada deseja além de desejar. A lei é derrisória em relação ao que proíbe; ela proíbe o desejo maquiando a proibição no suposto incesto impossível. “O desejado é o fluxo germinal ou germinativo intenso, no qual se procuraria, em vão, por pessoas e mesmo por funções discerníveis como pai, mãe, filho, irmã etc.”[4]
Para o desejo, pouco importa se o investimento nessas pessoas definidas seria incestuoso ou indiferente ao incesto. O que se pode esperar é que o desejo invista também nessas pessoas, mas da mesma forma que investiria em qualquer outra figura. Há outro segredo sujo: não se pode revelar o verdadeiro terror do socius: o plano de imanência do desejo é o corpo sem órgãos de onde partem fluxos que não são codificáveis e que não se deixariam codificar – “precisamente o terror de todo socius”.[5]
Por isso, a sociedade capitalista civilizada é paranóica, ela mesma se vale da descodificação dos fluxos codificados para reutilizá-los. Há uma poderosa máquina axiomática no capitalismo que reúne todos os fluxos livres em forma de capital-dinheiro. A outra consequência é pensar a civilização a partir de dentro da interdição que faria o desejo refém da lei. Seria o mesmo que dizer: sem interdição, não há desejo. E que, numa filiação pré-incestuosa, intensiva, ambígua e disjuntiva, não há lei, nem uma questão em relação ao desejo.
No Anti-Édipo, os autores mostram que a aliança é segunda, recalcante e limitativa; ela chega para ordenar, discretizar, policiar. A questão do Édipo na psicanálise transforma-se em uma micropolítica fascista. Na família idealista, será impossível pensar no registro das máquinas desejantes sobre o corpo sem órgãos, sem que esse passe pelos termos edipianos; por outro lado, a reação será do consumo das quantidades intensivas, a qual, em sua natureza imanente, é totalmente estranha ao triângulo papai-Mamãe-eu.
A paranoia da psicanálise é conter essas quantidades intensivas num enquadre. A paranoia da sociedade é recalcar todos os fluxos em sua fonte, portanto a família se presta a esse papel de Estado. A preocupação é com a construção de uma muralha sem brechas, um significante despótico, um grande “Eu sou soberano”. Daí, a esquizoanálise levanta outra possibilidade. Trocar a paranoia interpretativa “do que isso quer dizer”, em relação ao inconsciente edipianizado, pelo “como isso funciona” do inconsciente esquizofrênico.
É difícil pensar em “furar as paredes do complexo triangular edipiano pela psicanálise”; sua resolução leva um tempo demasiadamente longo. O esquizofrênico pode consegui-lo enquanto loucura, mas não há aproveitamento produtivo senão reinserindo isso numa práxis política e social que vise ao combate permanente.



[1] Idem, p. 190.
[2] Idem, ibidem.
[3] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., L’Anti-Oedipe,  p. 190.
[4] Idem, p. 191.
[5] Idem, ibidem.

Comentários