Conclusão - IV

No que se expôs, segundo Deleuze/Guattari, percebemos que não existe um saber universal e abrangente a todas as questões, principalmente quando se trata da natureza profunda do homem. Não existe um modo de produção único e dominante nessa área. O que existe é um modo predominante em determinado momento histórico. Se a psicanálise é um modo desse tempo, é preciso dizer que por ela definimos o sujeito heterossexual edpianizado.
Arriscamos dizer que a psicanálise nada fez para mudar esse homem narcisista. Na verdade, a psicanálise se impôs como um novo imperialismo ideológico que funciona como aparelho de correção da máquina psíquica. Pretendeu o universal na esteira da autoridade patriarcal, mas se conformou à forma da burocracia que garante a funcionalidade do pai. A interpretação não é revolucionária, mas de uma política de conformação. O psicanalista é um técnico que harmoniza os ruídos da máquina desejante sob a estrutura e/ou o teatro do inconsciente.
Uma reprodução – e nada de produção de novo: você deve deitar no divã e falar de seus pais. Uma axiomática que garante a qualquer preço a produção de enunciado da família, mesmo quando se está falando de nações, de reinos e de civilizações.
A psicanálise é “um valor deste nosso mundo”, de nossa cultura. Ela ajudou a teologia a interiorizar a ideia de conformação. Teologismo e psicanalismo são dois saberes que comportam metodologias semelhantes, um significante despótico no centro que faz girar a produção de significado. Ou você está falando a partir de uma autoridade ou de outra, Édipo ou Deus. De qualquer maneira, um cabe no outro, é possível rezar nas duas cartilhas, pois ambas produzem crentes em alguma coisa.
A esquizoanálise ou pragmática universal (termos usados em Capitalismo e esquizofrenia) que Deleuze/Guattari propõem não é um saber totalizante; antes, é uma compreensão do mundo que inclui muitos saberes além da filosofia especificamente. Os catadores de ideias buscam desalojar a potência do pensamento lá onde ela se encontra, seja na arte, na ciência ou na literatura. Por isso, trata-se de um pensamento nômade. Não um pensamento definido na história da filosofia, mas um pensamento de criar pensares, que faz pensar.
A proposta que fica é a de uma esquizoanálise, uma análise dos investimentos sociais sem Édipo. Quando se pensa na questão clínica individual, é para projetá-la na sociedade. O indivíduo é produto do social desde o momento em que se encontra nos braços da mãe. Os investimentos sociais inconscientes são tanto sobre a criança quanto sobre os adultos.
A territorialização-mãe e a lei do nome do pai já visam às forças esquizas e aos fluxos. A ideia é fazer com que esses fluxos passem da territorialidade-mãe para a Lei-papai, no caso da sociedade. Esse é o lado segregativo e paranoico do investimento social. A esquizoanálise conta com os investimentos nomádicos, os dois pólos do delírio: o pólo paranoico-fascistizante contra o pólo esquizorrevolucionário.

Como vimos, a esquizoanálise é uma arma de guerra, mas de uma guerra sem batalhas. Deleuze/Guattari usam o termo “afrontamento” no lugar de batalha ou de guerra. Afrontar o poder não é o mesmo que enfrentá-lo. Nem mesmo se trata do poder constituído que os revolucionários de extrema esquerda sempre desejaram derrubar. Uma micropolítica começa em casa, com um “cuidado de si” no que há de mais comum em todo mundo: o desejo pelo poder que oprime, seja lá em que esfera ou dimensão ele se encontre.

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