Esquizoanálise - VI

A esquizoanálise muda o foco para o outro lado; ela se foca nas regiões microfísicas ou micropsíquicas, lá onde as forças puras podem bifurcar-se. “Aí onde há desejo, isto é, não apenas funcionamento, mas formação e autoprodução.” Desde as formações biológicas, nas quais o vitalismo se fixou, mas não pôde compreender a extensão maquínica até o ponto em que as ligações prévias se encontram. Não é mais uma questão de vitalismo ou mecanicismo. As formações molares, desde a constituição dos tecidos celulares, “têm uma inaptidão fundamental em dar conta de suas formações”.[1]
O Anti-Édipo ultrapassa o binômio vitalismo/mecanicismo para dar conta do funcionamento das máquinas. O mecanicismo só pode afirmar que uma máquina funciona segundo a lógica de suas ligações, suas conexões, ordem de posição de suas peças. Mas há algo que forma essas máquinas, que anima suas pulsações, que é subtraído das máquinas pelo mecanicismo, “essa unidade estrutural, segundo a qual se explica o funcionamento do organismo”.
O para-além do mecanicismo é o desejo que funciona fazendo conexões desde a realidade prévia (molecular) até as formações posteriores (molar). Por outro lado, o vitalismo “invoca uma unidade individual e específica do vivo, que toda máquina supõe enquanto se subordina à persistência orgânica e prolonga no exterior suas formações autônomas”.[2]
O desejo e as máquinas desejantes aparecem ou como causa mecânica (vitalismo) ou como produto de um maquinismo que põe a própria máquina como subsistema de “meios em função de fins do desejo”.[3]
Não é necessário opor-se às duas teses (mecanicismo, onde o corpo seria apenas uma máquina mais sofisticada, ou vitalismo, onde as máquinas são apenas prolongamento do corpo). A tarefa é lançá-las no campo de imanência do desejo. Membros/peças de uma máquina e órgãos vitais de um mesmo organismo que jazem todos sobre o corpo sem órgãos de uma sociedade, de onde os indivíduos retiram mais ou menos potência de acordo com sua capacidade de se afirmar.
Em ambos os casos (mecanicismo e vitalismo), fala-se de máquinas em cima de formações molares. A pergunta que os autores fazem é a seguinte: “Como falar de máquinas nessas regiões microfísicas ou micropsíquicas, aí onde há desejo, isto é, não apenas funcionamento, mas formação e autoprodução?”[4] No início do Anti-Édipo, defendeu-se que as máquinas são órgãos ou que os órgãos são máquinas. Essas, sob um modelo rizomático, atingem uma infinidade atemporal.
Nesse ponto limítrofe, as máquinas funcionam com e nos organismos, produzindo ruído em todo o suporte molar. E, nesse suporte molar, elas operam modificações, somatizações, explosões, mutações adaptativas, e demonstram a fugacidade da ideia do “corpo organizado e harmônico”.



[1] Idem, ibidem.
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, p. 338.
[4] Idem, p. 337.

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