Esquizoanálise IV

A esquizoanálise pretende extrair a potência esquizofrênica do esquizofrênico sem se perder em suas linhas que se enroscam. No Anti-Édipo, a esquizoanálise é tomada do ponto de vista de uma clínica universal. Então, como análise das sociedades, deve-se pensar a história não no sentido dos grandes personagens e dos fatos históricos, mas como análise das vicissitudes e dos arranjos e rearranjos das forças e dos investimentos do desejo.
Como cada sociedade cuidou da codificação dos fluxos do desejo, todas têm sua formação sobre seu corpo pleno, onde se rebate. Tudo tem seu limite no corpo pleno sem órgãos. Deleuze/Guattari se remetem à física para explicar os dois modos de formação da realidade – molar e molecular – que se assentam sobre o corpo sem órgãos; são duas sínteses que saltam para a realidade social e unem homem e natureza.
Do corpo pleno sem órgãos, podemos dizer que há duas possibilidades: conjuntos molares e elementos moleculares. Dentro desses dois sistemas, há duas vias que podem manifestar-se em forma de investimento de desejo: fascista/tirânico ou revolucionário, mas não há como prever.
Como já mencionado, os autores dividem a história das sociedades em três momentos, e cada qual com seu corpo pleno. Do ponto de vista de uma clínica universal, há duas situações que correm ao lado das formações sociais: a paranoia e a esquizofrenia. Esses termos são resgatados da clínica psiquiátrica, mas para ganhar um sentido de potência política.
Em última instância, as sociedades se assentam sobre um corpo sem órgãos, “uma face dos investimentos sociais é operada por conjuntos molares, e a outra, povoada de elementos moleculares”.[1] Visto de outra forma: há nas formações sociais uma dimensão paranoica, e uma linha de fuga forçando sempre uma saída, uma abertura esquizofrênica. Essa linha esquizofrênica tem o desejo de regressar ao corpo pleno sem órgãos. Esse é o único meio de atravessar as paredes do Édipo familiar e do significante despótico, e chegar aos elementos moleculares. Os indivíduos e as sociedades oscilam entre a paranoia e a esquizofrenia.
 Ao tomarem emprestados os termos da psiquiatria, Deleuze/Guattari advertem para os arranjos miseráveis do mundo moderno sobre os mesmos. Colocam-se a paranoia e a esquizofrenia dentro de um conjunto clínico axilar, “no conjunto familiar das neuroses edipianas”.[2]
Em nosso caso, não se trataria da paranoia clínica delirante, mas de uma corrida atrasada para ocultar e reprimir intensidades. Também não se trataria da esquizofrenia asilar do autista zumbi medicado, mas do homo natura desterritorializado. Há uma linha esquizofrênica de desterritorialização que atravessa todos os socius; há um corpo sem órgãos ou vários em cada indivíduo. Para controlar essas linhas, cada socius busca a seu modo um tipo de máquina de correção, captura e marcação de códigos.
Na sociedade primitiva selvagem, os códigos são marcados no corpo do indivíduo, num sistema de crueldade. Na sociedade despótica, o déspota paranoico centraliza nele a captura de todos os fluxos, por isso se diz: “Eu sou o caminho...” E na sociedade capitalista dita civilizada, a máquina axiomática do capital-dinheiro reutiliza os fluxos descodificados para reuni-los como subproduto.
Para cada momento da história, a interpretação clínica moderna atribui uma sintomatologia: na sociedade primitiva, atribui-se uma perversão como entidade territorial. A etnografia estatal não pôde compreender o sistema de crueldade sem lhe impor as interpretações etnocêntricas. Pierre Clastres provou ao contrário quando demonstrou que as sociedades sem Estado não são contra o Estado, por isso não se encontram em situação de pré-civilização. Tais sociedades não têm Estado porque seu sistema de organização não permite essa formação.
Por outro lado, o sistema de crueldade “nada tem a ver com uma violência qualquer ou natural (...) ela é o movimento da cultura que se opera nos corpos e se inscreve neles”.[3] Inscrevem-se os signos no corpo para tornar o homem “capaz de linguagem e dar a ele uma memória de palavras”.
Na sociedade despótica, atribui-se ao corpo despótico uma especialidade médica da psicose paranoica: as entidades paranoicas. O sentido político para o termo paranoico vem de Canetti; o paranoico é um esquadrinhador das massas. O paranoico se relaciona com macrofísica. Hitler e Mussolini são grandes especialistas de massas – eles fazem a macrofísica. É um erro pensar que as massas teriam à sua frente um esquizofrênico. Mesmo o esquizofrênico autista, à sua maneira, só sabe lidar com as intensidades puras. Por outro lado, o paranoico não sabe nada acerca de tal microfísica. É que o esquizo segue na direção das “moléculas enquanto elas não obedecem mais às leis estatísticas”. Eles seguem as ondas, “os fluxos e os objetos parciais que não são mais tributários dos grandes números”.[4]



[1] Idem, p. 335.
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, p. 170.
[4] Idem, p. 332.

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