Conclusão - VIII

Tudo se desloca por conta da conexão com o exterior, com n dimensão a-significantes. Sempre que for ameaçado por uma estratificação, um rizoma pode romper e seguir noutra dimensão. Os cortes demasiadamente significantes, que marcam e atravessam estruturas, precipitam o rizoma em quedas livres, desvios e subidas bruscas, princípio de ruptura a-significante. Os vírus e as bactérias são micromáquinas que funcionam sob a lógica do rizoma, por isso é tão difícil combatê-los. Uma vacina contra um vírus, um antibiótico contra uma bactéria, são armas muito provisórias. Eles fazem rizoma com a vacina e o antibiótico, modificando seu núcleo para n dimensões. Não há um modelo estrutural ou segregativo que resista ao rizoma.
A linguística e a psicanálise vacilam porque dependem de uma roda giratória em torno de um pivô, mas o rizoma arranca fora os eixos da engrenagem da psicanálise e da linguística. Um balbucio ou uma gagueira não conta com um eixo central; só existem afetos por trás da gagueira e do balbucio. Não se trata de uma volta a uma estrutura ou de uma relembrança da figura do papai-mamãe. Trata-se de um mapa intensivo, princípio de cartografia e deslocamento. Não é só o mundo dos homens que se organiza em estruturas molares. A natureza também se organiza em formas, mas com uma diferença: ela mantém a lógica da máquina – um lado para fora (alopoiética) e outro lado para um dentro que se abre (autopoiética). No dizer de Don Juan, o mundo dos homens e o mundo dos diableros.
A tarefa consiste em permanecer na fronteira, permitindo o passeio entre os mundos. Não é preciso morrer para que a alma suba, para depois trazer de volta as reminiscências do outro mundo.
Nesse caso, só resta um procedimento: o que se encontra no Platô de número 6. 28 de novembro de 1947 – Como criar para si um corpo sem órgãos? Não é o mesmo que ir lá na desmensura, onde a alma encontra seu ser? A filosofia de Deleuze/Guattari nos leva a essa síntese derrisória. É a filosofia do Ovo. Não de um ovo que pode se transformar em árvore da vida. Mas da vida que vem de um Ovo cósmico, da Molécula gigante. O Ovo é um mapa intensivo que não pode ser comparado a uma imagem regressiva. Ao contrário, “ele é contemporâneo por excelência”. Ele não é antes do “organismo; é adjacente e não para de se fazer”. Estamos nele ainda que não saibamos, arrastamo-nos como um verme, prontos para criar asas. Nele, somos todos contemporâneos de tudo e de todos, somos, ao mesmo tempo, filhos e pais, crianças e adultos, passado e futuro, corpo e não corpo. É preciso voltar à Castañeda: “Numa palavra, o tonal é tudo, inclusive Deus, o juízo de Deus. No entanto, o tonal é apenas uma ilha, porque também o nagual é tudo.”[1]
Estamos mergulhados no nagual como uma ilha em meio ao oceano. Criar um corpo sem órgãos para si não é o mesmo que estar rastejando como um verme no corpo sem órgãos. Não é uma conformidade do tipo “estamos nos braços de Deus”. Numa micropolítica, significa um árduo trabalho de fazer para si blocos sucessivos de imanência. É como se experimentássemos infâncias sucessivas, não as lembranças da infância, mas a experimentação da potência da criança.



[1]  DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mille Plateaux,  p. 200.

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