Conclusão - I
Por uma questão metodológica, chegamos à conclusão cientes de que
estamos sujeitos às muitas dificuldades que ficaram pelo caminho. O sentido da
experimentação com a própria vida está junto ao ato de pesquisa. Isso porque
somos afetados por ideias vindas de muitas partes. As imagens nos chegam e nos
tocam de autores diversos, a força dos conceitos nos arrastam para longe de
nossas convicções. Mudamos nosso rumo inúmeras vezes, ficamos sem rumo noutras
tantas vezes.
Neste momento, surge a seguinte pergunta: Isso, em si, já não é um modo
de praticar uma micropolítica? Trabalhamos com nossa vida. Desfazendo nossas
próprias certezas, vendo-as em desmoronamento contínuo. Experimentamos nosso
corpo como uma máquina minuciosa, com ligações e filamentos delicados. No
momento em que nos encontramos com os “pedaços” vindos de tantas áreas, é
impossível não pensar na vida de cada indivíduo que se encontra por trás
daquele pensamento, daquela obra, seja de um personagem ou de um conceito.
Trabalhamos com múltiplos autores, mas não são apenas os autores
citados; são aqueles que perfazem toda a cadeia de um phylum maquínico. Cada um que leu e experimentou a potência do
outro que experimentou um outro que, por sua vez, já havia experimentado uma
potência de um outro ainda, até uma fusão cósmica. Eis todo o sentido da
experimentação com a própria vida.
Passamos pelas quedas bruscas dos estratos (Édipo, família, Estado,
religião), assistimos, pelas lentes do Anti-Édipo e pelas aberturas do fico de
Mil Platôs, aos movimentos da história das sociedades em torno da codificação
dos fluxos de desejo. Na micropolítica, não há questão mais importante do que a
das máquinas, a de saber como elas funcionam na própria vida: as ligações, os
agenciamentos com a exterioridade, as práticas e as produções de enunciados.
Falar em seu próprio nome, criar para si o estilo de vida que lhe convém. Andar
cada vez mais sóbrio, embora embriagado de tal sobriedade.
Para afrontar o poder que oprime e enfraquece para dominar, o passeio
esquizofrênico, sua prática de introduzir a bicicleta no triângulo edipiano.
Ou, de outra maneira, descrevê-lo em sua forma mais pura e derrisória, como o
fez Kafka: Édipo é a autoridade em sua paranoia burocrática e jurídica. Para
que servem tais máquinas? Ao tentar descrever, já estamos fazendo política.
A invenção do homem acarretou a separação homem-natureza, mas é preciso
pensar a separação na prática: a indústria humana produz produtos e detritos; à
indústria, opõe-se a natureza. A máquina que une a natureza e o homem produz o
produzir. A energia que as máquinas desejantes consomem são imanentes às
próprias máquinas, por isso não sobra resíduo na natureza. Tudo é máquina de
máquina.
Na prática, cada movimento da indústria pressupõe um distanciamento da
natureza. Não há sustentabilidade industrial quando a essência da indústria
começa por uma cisão com a natureza. Não apenas as peças trabalhadoras da
máquina industrial que produz deixam um rastro de detritos. O homem separado da
natureza perdeu a visão de conjunto. Na expressão “tudo é produção”, deve-se
entender que, na inversão das máquinas desejantes para o nível das máquinas
técnicas e sociais, tudo continua a ser produção, seja qual for a direção que se
tome. De forma que o homem se encontra confrontado com essa questão crucial que
Guattari bem abordou em As três ecologias.
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