Esquizoanálise - conclusão
A esquizoanálise, ao abrir esses portais de virtualidade, tem a
finalidade de levar o indivíduo a fazer funcionar o “acontecimento como
portador eventual de uma nova constelação de Universos de referência”.[1]
É a isso que visa uma intervenção pragmática, ou seja, “à produção de campos de
virtualidades, e não apenas polarizada por uma hermenêutica simbólica dirigida à
infância”.[2]
A prática de uma micropolítica se ocupa do rastreamento das máquinas desejantes
que se encontram no meio do nível molar. Encontrar as forças do desejo no
funcionamento das máquinas sociais, mapear as forças dentro das instituições,
identificar as cristalizações interiorizadas nos indivíduos. Como dizem
Deleuze/Guattari: “Trata-se de descobrir quais são as máquinas desejantes de um
indivíduo; de que modo funcionam, com que sínteses, com que entusiasmo, com que
falhas constitutivas, com que fluxos, com que encadeamentos, com que devir em
cada caso”.[3]
Para atingir esse ponto, é preciso estar ciente de “que todo o
investimento é molar e social”.[4]
A tarefa da esquizoanálise “é distinguir os investimentos preconscientes de
classe conforme os interesses, e os investimentos libidinais inconscientes
conforme o desejo”.[5]
Faltou essa análise no caso da “revolução traída de maio de 1968” na França.
Conforme Foucault, algo da ordem do desejo se passou sem que ninguém percebesse.[6]
Em todo caso, vai se considerar uma economia coletiva, “de
agenciamentos coletivos do desejo e de subjetividade que, em algumas
circunstâncias, alguns contextos sociais podem se individualizar”[7]
em qualquer direção.
Para os autores, “uma revolução social é inseparável de uma revolução
do desejo”, daí a questão passar por uma cartografia do desejo individual em
sucessões até os níveis coletivos. A questão deve ser deslocada para
descobrir-se “em que condições poderá a vanguarda revolucionária libertar-se de
sua cumplicidade inconsciente com as estruturas repressivas e frustrar as
manipulações pelo poder do desejo das massas”.[8]
O problema não será resolvido com a compreensão de si mesmo pela via da
psicanálise. Ele inventa Édipo como problema para dele mesmo extrair uma
solução. A questão do Anti-Édipo é suprimir tanto o problema quanto a solução.
A esquizoanálise vai mais fundo, “ela pretende desedipianizar o inconsciente
para chegar aos verdadeiros problemas”,[9]
ultrapassar as barreiras de Édipo e chegar às regiões do inconsciente órfão.
Chegar ao território a-subjetivo para libertar as forças que ali se encontram
sem lei e sem Deus.
Tudo começa quando se encontra o campo de imanência, que está além do
eu, no lugar em que Artaud viu a “matéria onde não existem deuses; os
princípios, como forças, essências, substâncias, elementos, remissões,
produções; as maneiras de ser ou modalidades como intensidades produzidas,
vibrações, sopros (...)”.[10]
Freud evitou debruçar-se sobre esse caldeirão efervescente, pois ainda
se encontrava preso à física newtoniana da indivisibilidade do átomo. O olhar
do cientista se voltava para as formações que se dobram e constituem um aparato
psicológico. Ele detinha um saber e um modo de viver que optava por
intensificar o que funciona em detrimento da capacidade heurística do mundo
previsível das segmentaridades duras, dos espaços estriados.
A psicanálise revela o aparelho de captura que opera as ordenações
quadriculadas do real (Édipo), mas é em cima dele que ela se constitui, não
para aboli-lo, mas para se constituir teoricamente na dependência dele. O
aparelho psicológico freudiano inaugura o que há de mais próximo de um aparato
micropolítico. As forças que se interiorizam em forma de instâncias psíquicas
vêm a se constituir no primeiro território de guerra: constituições moleculares
de um lado, pulsão de morte e formações molares de outro, recalque de
conservação. São dois pólos que sustentam dois modos de produção: pólo paranoico
das entidades molares – capturante e antiprodutivo – e pólo dos processos moleculares
– esquizóide produtivo-desejante e revolucionário.
A esquizoanálise vai trabalhar com a essência do real, que é a produção
desejante. Ela não se interessa por decifrar ou interpretar; interessa-se mais
pelo jogo de forças, porque, nesse caso, as representações não interessam tanto
quanto as forças.
Para Orlandi, a esquizoanálise é uma pragmática universal que pode ser
compreendida melhor em seu intento de se desenhar como método de investigação
de “linhas de ação da diferença, que não são apenas praticadas, como também
tematizadas”. Essas linhas se encontram e se experimentam nos encontros por
elas mesmas “provocados ou nos encontros que lhes são impostos por outras
linhas da diferença em ação”.[11]
São linhas que constituem os acontecimentos, desdobram-se nisso ou
naquilo, signos que precipitam acontecimentos “deste ou daquele acontecimento,
ou até de um novo tipo de relação esportiva com as águas, com o ar etc.”[12]
São duas funções, uma negativa e outra positiva: a negativa é a raspagem dos
registros e controles e dos mecanismos de antiprodução; e a positiva envolve
agenciar, maquinar, potencializar o acontecimento.
Nesse sentido, a esquizoanálise é uma máquina de guerra.
Deleuze/Guattari vêem, a partir da esquizoanálise, a possibilidade de uma
“subversão interna da máquina analítica”, ou seja, o método psicanalítico pode
tornar-se “peça indispensável do aparelho revolucionário”.[13]
Os autores constatam o fato de sermos edipianizados de qualquer
maneira, ou no recôndito da casa em família, ou pelos aparelhos de
segmentarização do Estado. Ou passamos pela crise de Édipo ou nos afundamos na
estrutura edipiana. Do mesmo modo que transmitimos aos outros ora a crise de
Édipo ora a estrutura edipiana: não há como escapar. A sociedade pode até
desarrumar as figuras parentais em formas diversas de conjugalidade, mas ela
substitui as figuras papai-mamãe pelas funções de mãe e de pai.
Kafka já havia denunciado esse fenômeno de universalização da
autoridade do pai. “Fundar a universalidade de Édipo para além da variabilidade
das imagens, soldar ainda melhor o desejo à lei e à proibição, e levar ao
máximo o processo de edipianização do inconsciente.”[14]
[1] Idem, p. 30.
[2] Idem, ibidem.
[3] FURTO, J. e ROUSSILON R., op. cit., pp. 49-50.
[4] Idem, p. 50.
[5] Idem, ibidem.
[6] FOUCAULT, M. “Introdução à vida não fascista”. Prefácio
em Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia. New York: Viking Press, 1977, pp. XI-XIV.
[7] GUATTARI, F. e ROLNIK, S., Micropolítica: cartografias do desejo, p. 232.
[8] FURTO, J. e ROUSSILON R. “Deleuze e Guattari explicam-se... Entrevista I”. In: Capitalismo
e esquizofrenia: dossier Anti–Édipo.
Porto: Assírio & Alvim, 1976, p. 59.
[9] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., L’Anti-Oedipe, p. 97.
[10] Idem, p. 196.
[11] Orlandi, L. B. “Linhas de ação da diferença”. In: ALLIEZ,
Éric. Gilles Deleuze: uma vida filosófica
(org.). Tradução de Ana Lúcia de Oliveira. São Paulo: Editora, 34, 2000, p. 4.
[12] Idem, ibidem.
[13] DELEUZE, G./GUATTARI, F., L’Anti-Oedipe, p. 97.
[14] Idem, p. 98.
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