Conclusão - III

Uma micropolítica deve adiantar-se, no sentido de que, quando há um grupo, é porque a subjetivação já está formada. Não se trata de uma psicanálise da sociedade; Édipo não é uma invenção da psicanálise. Freud apenas percebeu o que já se encontrava no seio de sua sociedade. O Édipo familiar é uma realidade burguesa religiosa que presta um serviço ao Estado igualmente burguês e puritano. Não devemos perder de vista as inspirações protestantes do capitalismo de mercado. A ética protestante funciona como gérmen capitalista sem abrir mão da família. Cinismo do capitalismo, desorganiza a família e mercantiliza o protestantismo. Lutero, ingenuamente, interpretou a salvação através do “dom gratuito de Deus”, sendo esse dom carregado de bênçãos materiais. Deus morreu no que havia de mais sublime na doutrina de São Paulo: a graça.
O maior dos perigos numa política não é deixar de perceber o desvio de um tendência revolucionária imediata; nesse caso, é algo facilmente perceptível. O mais terrível dos perigos reside no devir molecular sombrio que se desenvolve num tempo longo e, nesse caso, não é percebido. Uma máquina abstrata pode funcionar no silêncio do tempo. Nietzsche percebeu isso ao falar do longo tempo necessário para se fazer um homem que aprendeu a prometer.
Daí a necessidade de uma disciplina que compreenda e acompanhe a realidade mesma da matéria molecular e que subverta os hábitos e as certezas de todas as disciplinas constituídas. No extremo das análises, carecemos de uma análise ou de uma disciplina que igualmente subverta as certezas e os hábitos de se constituírem verdades eternas. Como ficou subdito em O Anti-Édipo, uma transversalidade, não apenas do tipo que Guattari demonstrou, mas uma que considere a complexidade de que nos fala Edgard Morin.
As crianças na escola devem passar a estudar a vida, e não se fechar numa biologia curricular, por exemplo. Ambos os autores falam da mesma realidade vivida, ou seja, estabelecer uma conexão entre a pesquisa, o saber e o terreno da experiência vivida, das representações dos atores e de suas palavras. Não se trata do sujeito do inconsciente recalcado, mas do sujeito esquizofrênico que mantém uma relação complexa com a natureza. Nesse caso, erige-se um sujeito que não precisa prestar contas nem perante a transcendência, nem perante a história. Ele se encontra na mais alta legislação com a vida, é o especialista do direito natural. Não renega a história, porque convive com ela, mas se debruça sobre o passado como as crianças. Ele é o Homo história.
Nessa política, não se tem mais a ilusão da “grande” noite ou do “grande dia”, muito pelo contrário, não se espera nada, mas se produz o “dia” que nunca chega porque nunca acaba de chegar.

 A verdadeira revolução começa pela subversão da própria noção de revolução. É mais do que criar uma tese ou um conhecimento; estamos muito próximos de criar um conhecimento sobre o devir da vida. Ficam para trás o hermético e fixo, modelo da árvore. Abrem-se linhas conectáveis em todas a direções, “roubos” de múltiplos planos. O conceito de Corpo Sem Órgãos vem de muitas partes, desde a inspiração teológica de Duns Scot, passando por Espinosa, até a “loucura” de Artaud, que viu no mito dos índios Dogons e das religiões orientais “o Ovo Cósmico”. Os autores reuniram num só conceito elementos “psicóticos” de um mito indígena aos elementos da física quântica atual. Por isso, são chamados de bricoleurs, juntadores de ideias.

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