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Fascismos moleculares

Não existe formula mais estupida do que a do amante que diz “matar por amor”. E delicada é a conclusão jurídica que se faz do “assassinato por amor” – um crime passional que deve ser atenuado pelo fato de ter sido sob paixão. Toma-se o dito amor por paixão e o amante como vítima da mesma. Logo, todos nós, mais ou menos, estamos sujeitos a matar nossos amores quando estivermos sob pathos – paixão de onde se origina a palavra patologia. Considera-se que indivíduo não age inteiramente livre por estar patológico. E, consequentemente, no momento do crime,  não teria a total posse das faculdades mentais – o criminoso estaria doente nesse sentido. Nunca se ouviu tanto de amantes que assassinam suas mulheres por “amarem demais”. E de amantes mulheres que se vingam por amor, matando a pessoa mais próxima do amante – filhos, enteados, ex-amor ou qualquer pessoa que atinja o sentimento do amante. Amantes assassinam seus filhos para provarem que têm “grande amor” um pelo outro. ...

Máquina despótica

A salvação - no plano da natureza, da forma como sugerimos anteriormente - está em relação aos predadores que a compõe. Quando entra em cena a ação humana, a salvação será sempre em relação a uma máquina despótica. Ela coloca os sujeitos em situações intoleráveis – a salvação é sempre de um intolerável. O termo despótico não cabe em relação à natureza. Não se pode dizer que a ave de rapina tenha uma relação de poder despótico pra com a ovelha. A ave de rapina come ovelhas e outros animais sem pretender ser superior a eles – apena come a carne.  Não existe uma politica de aves de rapina em favor da dominação das ovelhas. Nem mesmo deve existir uma organização partidária das ovelhas em relação à resistência de uma suposta dominação. Mas é certo existir uma micropolítica de criação de meios possíveis de sobrevivência de ambas as partes. As relações na natureza são imanentes aos engendramentos que ela mesma compõe. Em nenhum momento será possível atribuir à natureza a categ...

O maquinismo nômade

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Dizíamos que as máquinas de guerra é uma questão de “salvação”. Mais uma vez não podemos cair no equivoco de pensar rápido e relacionar o termo com a ideia religiosa de salvação. Não se trata de salvação da alma ou salvação eterna. Muito menos se trataria da salvação dos pecados. Nada disso! A vida dos organismos, dos seres vivos, quer ir ao seu limite. Crescer, expandir e subir ao limite do que pode - como pensou Nietzsche. Ser salvo é seguir firme nesse propósito – ir ao limite do que pode.  E quando precisamos se salvação? Ou, quando um indivíduo precisa ser salvo? Quando sua meta estiver sendo limitada por forças transcendentes – forças externas a sua natureza. Pensemos num animal qualquer - um carrapato, um rato, uma cobra ou uma cigarra – qualquer ser vivo precisa de salvação quando sua meta estiver ameaçada de seguir. Estou dizendo “meta” para fugir da ideia de “finalidade”. Não há finalidades na vida, ou propósitos imanentes à vida. As finalidades são se...

Máquinas de guerra

É um modo de funcionamento que não tem relação com as batalhas dos exércitos, não tem armas de matar e não derrama sangue. Estamos perseguindo a trilha do desejo. Nossa questão passa por linhas de intensidades que são flexíveis. Nunca se almeja o sedentarismo do poder. Desse lado não existe violência alguma. Não estamos do lado da maioria democrática que assume o poder, nem do lado das minorias que desejam a tomada do poder. Nossa questão estará sempre longe do trono do poder. E mais longe ainda, da guerra e de suas mortes.  Uma máquina de guerra se caracteriza pelos deslocamentos contínuos, pelas velocidades que impõe, pela capacidade de confundir o inimigo. Não tem nisso, nenhum ódio ao inimigo. As “fugas”, as “escapadas” e outras estratégias, têm o único propósito de “salvação” do guerreiro. Os ataques das máquinas de guerra têm mais relação com o guerreiro e menos com o inimigo. Trata-se da salvação do guerreiro e não tem nada a ver com a morte do inimigo. O modo ...

As salas das máquinas

É só um modo de dizer - “salas” - dos mundos que se compõem e se opõem muitas vezes. As máquinas não são metáforas de máquinas, são realidades materiais palpáveis. São modos de funcionamento do mundo sem a clássica separação de meio ambiente e o resto. Natureza e cultura compõem o ambiente que temos – o mundo - são “as salas das máquinas” com seus múltiplos sons e ruídos. O termo “máquina” se remete ao desejo e ao seu modo de funcionamento. O desejo é máquina de agenciar tudo. Mas não existe nenhuma garantia quanto a qualidade dos agenciamentos. O desejo, sempre opera por agenciamentos, que podem ser afirmativos da vida ou de negação dela – negar a vida é não ir ao limite do que se pode. As máquinas são os modos desejantes dos agenciamentos. Quando as máquinas são de natureza fascista, os fluxos de desejo são capturados e marcados para o fascismo – a juventude do nazismo alemão, por exemplo. Um poder despótico cria uma máquina despótica, captura fluxos de desejo, codifica ...

Máquinas

  Lembramos que esse conceito, desenvolvido no conjunto da obra Capitalismo e esquizofrenia (Gilles Deleuze e Félix Guattari), se encontra mais bem elaborado no volume O Anti-Édipo. A obra toda está traduzida para o português e publicada pela Editora 34. Existe uma tradução brasileira muito boa de Luiz B. L. Orlandi. O conceito de máquinas está diretamente relacionado à questão do desejo. Por isso, a noção de “máquinas desejantes”. Pode parecer confuso pensar em “máquinas” quando se fala do desejo. O que nos vem à mente é sempre o maquinismo técnico de inspiração cartesiana – do corpo funcionando como máquina. Ou, das máquinas técnicas de produção de produtos de consumo. Olhando diretamente n’ O Anti-Édipo, é possível perceber que os autores têm inspiração de diversos campos de conhecimento ao elaborar o conceito de máquinas. Do vitalismo biológico ao maquinismo técnico, existem muitos “pedaços” de muitas áreas de conhecimento. Eles foram “catadores” – bricoleurs , c...

Submissão VI

  O fundamento do mundo é desejo - condição necessária da liberdade de todos os seres vivos. Desejar é o ato supremo da existência de qualquer vida orgânica.   Os organismos se movem por desejo, mas já não se pode pensar o desejo restrito aos objetos como se existisse um objeto que respondsse ao desejo.   Todo movimento da vida, todas as funções orgânicas – incluímos o mental na categoria de organismo – os sonhos, as volições, as angústias e dores, tudo tem como fundo a energia desejante. Desde um organismo unicelular - passando pelos vírus e por bactérias, até chegar ao homem - a força que move esses indivíduos a nutrirem-se e a reproduzirem-se até o seu limite de existir, é desejo. Mesmo os organismos que se classificam como “malignos”. Eles crescem e nos devoram, impulsionados pelo mesmo desejo que faz um jardim florir. Na verdade, a malignidade não passa de um conceito   moral que não funciona na relação com a natureza. Chamamos “maligno” a tudo...