O maquinismo nômade






Dizíamos que as máquinas de guerra é uma questão de “salvação”. Mais uma vez não podemos cair no equivoco de pensar rápido e relacionar o termo com a ideia religiosa de salvação.
Não se trata de salvação da alma ou salvação eterna. Muito menos se trataria da salvação dos pecados. Nada disso!
A vida dos organismos, dos seres vivos, quer ir ao seu limite. Crescer, expandir e subir ao limite do que pode - como pensou Nietzsche. Ser salvo é seguir firme nesse propósito – ir ao limite do que pode.
 E quando precisamos se salvação? Ou, quando um indivíduo precisa ser salvo? Quando sua meta estiver sendo limitada por forças transcendentes – forças externas a sua natureza.
Pensemos num animal qualquer - um carrapato, um rato, uma cobra ou uma cigarra – qualquer ser vivo precisa de salvação quando sua meta estiver ameaçada de seguir. Estou dizendo “meta” para fugir da ideia de “finalidade”. Não há finalidades na vida, ou propósitos imanentes à vida. As finalidades são sempre uma perspectiva humana - do homem como “senhor da natureza” uma crença paranoica supostamente retirada da Bíblia.
O homem decide que as coisas e os animais teriam finalidades de servir aos seus propósitos. Uma crença do poder humano sobre a natureza, como se o homem não fosse, ele mesmo natureza – tal crença faz da Terra a latrina dos dejetos humanos.
Esses animais citados precisam de salvação para atingir suas metas de vida – de expansão, de crescimento e de multiplicação.
Quando as cigarras “cantam” no verão – aquele barulho tremendo – não é para encantar os humanos. Isso pode até encantar, mas o propósito das cigarras é a sua meta – uma grande sinfonia de reprodução da espécie.
A mesma coisa acontece no canto do sabiá ou na ave - pavão, com sua exuberância multicolorida.
Nenhum deles está interessado em fazer a alegria dos homens nessas extraordinárias cerimonias de sedução. Estão todos salvando a si mesmos.
Quando um determinado tipo de peixe muda de natureza macho/fêmea, e assume a natureza do outro, é para salvar-se. Nisso não há nenhuma barreira moral do tipo temor a Deus. Eles apenas mudam de natureza por que precisam de salvação.
O tipo de camuflagem da cigarra funciona na mesma direção, é o efeito de um maquinismo nômade – um modo de funcionar da cigarra em relação ao ambiente.
A cigarra se faz parecer com o tronco da árvore, se camuflando na semelhança com os tons de luz refletidos no tronco, para escapar dos predadores. Cada cigarra escolhe aleatoriamente sua árvore e canta em uníssono, alternando o coro para confundir o “inimigo”.
Evadir-se de si mesmo em meio às fissuras do revestimento dos troncos das árvores e em meio a polissemia ambiental – as coisas deixam de ser isso ou aquilo e passam ao grau de intensidade, de multiplicidade de sentidos. Podem ser isso e aquilo ao mesmo tempo no mesmo indivíduo.
 Todas as cigarras cantando juntas faz parecer uma única cigarra - de difícil localização física e sonora.
Pelo lado óptico, a cigarra foge na semelhança com o troco da árvore. Por outro lado, no da sonoridade, na mistura intermitente dos sons, ela evadiu-se em meios as outras - como se a floresta inteira cantasse.
Uma cigarra cantando solitária numa parede branca é mais fácil de ser localizada. Mas uma quantidade de cigarras zumbindo juntas e ao mesmo tempo, deixa de ser uma canto discriminado em meio aos outros para se tornar uma intensidade com o mundo – salvação das cigarras.
Agora estamos em condições de entender uma máquina de guerra. Ela opera no nomadismo. Uma cigarra é nômade por que se desloca no espaço e em si mesma.
Olhamos o tronco da árvore, ouvimos o som, e nos confundimos sob a perspectiva de nossos sentidos. Procuramos a imagem da cigarra, o som de uma cigarra especifica, mas ela se perdeu na zona de vizinhança que se imiscui entre folhas, cascas, movimentos, luz e sons.
Não é mais o mundo das imagens precursoras que interessa ao maquinismo. O limite de uma máquina de guerra é escapar dos planos das imagens e evadir-se em microssistemas.
Tudo deixa de ser previsível – as cigarras não cantam a glória de deus. Elas se salvam a cada vez que grudam nos troncos que, a elas se assemelham, ou são elas mesmas que se mimetizam aos troncos? Não, as máquinas de guerra das cigarras são do tipo de camuflagem. É um rizoma do inseto com a luz nos tons luminosos que se modificam com o vento nas folhas, na mistura de cores e nos sons. A cigarra escapa sem sair do lugar.
É uma canto de gloria de salvação delas mesmas. Salvação da mais alta potência ética – escapar numa suposta aparência com o meio, ficar no meio das coisas, sem nunca precisar ficar “em cima do muro da neutralidade”, e sem nunca mentir.

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