Máquina despótica




A salvação - no plano da natureza, da forma como sugerimos anteriormente - está em relação aos predadores que a compõe. Quando entra em cena a ação humana, a salvação será sempre em relação a uma máquina despótica. Ela coloca os sujeitos em situações intoleráveis – a salvação é sempre de um intolerável.
O termo despótico não cabe em relação à natureza. Não se pode dizer que a ave de rapina tenha uma relação de poder despótico pra com a ovelha. A ave de rapina come ovelhas e outros animais sem pretender ser superior a eles – apena come a carne.
 Não existe uma politica de aves de rapina em favor da dominação das ovelhas. Nem mesmo deve existir uma organização partidária das ovelhas em relação à resistência de uma suposta dominação. Mas é certo existir uma micropolítica de criação de meios possíveis de sobrevivência de ambas as partes.
As relações na natureza são imanentes aos engendramentos que ela mesma compõe. Em nenhum momento será possível atribuir à natureza a categoria despótica. Esta se refere especificamente aos organismos sociais e políticos dos homens – só existe uma máquina despótica na sociedade dos homens, dentro de uma família, numa sala-de-aula e na sociedade como um todo.
Uma máquina despótica determina o que deve ser feito de forma arbitraria. É sempre uma relação de poder. Um elemento de fora que age sobre um sujeito submetido – sujeito que se assujeita ao ponto de desejar a submissão. O poder da máquina faz seguidores por meio da violência - por força ou por subjetivação. A princípio foi necessário exercer força sobre o indivíduo para torna-lo dócil.
O poder pode possuir a aparência religiosa dos santos. Nas Cruzadas, os santos são militares, um exército de santos carregava a cruz de Cristo numa mão e, na outra, a espada.
Existe a disciplina militar do corpo e a disciplina militar da alma – longas orações disciplinam a mente do contrito para se submeter às hierarquias do poder religioso.
Moisés no deserto “dá ao seu povo uma organização religiosa-militar”. Uma aliança de filiação direta se instala entre os déspotas-sacerdotes e o deus soberano. Na intimidade secreta nascem – também - os maiores segredos entre a ordem divina e uma estirpe sacerdotal. Uma estirpe sacerdotal se aperfeiçoa na arte de interpretação dos segredos – apenas homens de extrema confiança.
A aliança se funda primeiro entre o déspota e seu deus. Depois, entre o déspota e seus funcionários – os sacerdotes. Para finalmente atingir o povo. O “povo” já é o resultado de longo processo de subjetivação – um povo anda como um rebanho.
 A máquina despótica faz surgir o julgamento da vida. Todos os “valores sobre a vida” são dados pelo déspota. Toda forma de interpretação dos “segredos” é dada pelo déspota e, somente ele, está autorizado para fazer. Dizem, “pela primeira vez foi tirado da vida e da terra algo que vai permitir julgar a vida e sobrevoar a terra, princípio de conhecimento paranoico” (Anti-Édipo, 2010, p. 257).
É bom ressaltar que não é Moisés o inventor da máquina despótica. Nesse caso, é apenas um exemplo do como funciona a engrenagem.
Depois de consolidada a aliança, o déspota dirá: “eu sou o caminho”. Não devemos nos distanciar do sentido “despótico” pensando em seu funcionamento apenas em relação às grandes organizações, como nesse caso, de uma fundação de um Estado.
Pensemos num déspota mais próximo - no seio da família, na escola ou numa relação mais reduzida, entre duas pessoas. Sobre tudo, não devemos nos esquecer, há um déspota em nós, de boca escancarada e pronto para oprimir alguém. Um desejo fascista em nós pronto para saltar para fora e abusar de alguém.
Dentro da casa, muitas vezes, o pai é o déspota. A mãe é o déspota quando também, centraliza o poder ao dizer:
- “Eu sou o caminho”. Em outras palavras, pode estar dizendo:
- “Eu pago as contas, eu mando”. E dessa forma, subverter a força do desejo dos filhos em submissão. Uma forma despótica de dominar a vontade e determinações dos filhos.
O déspota em casa pretende ser o principio, o meio e o fim na vida dos filhos. Não existe forma mais apropriada de fazer filhos dependentes e eternamente imaturos.
  Quantas frustrações e tristezas numa carreira profissional, quando os filhos são conduzidos por intimidações e manipulações dos pais. Os pais deveriam ser facilitadores dos filhos. É o desejo dos filhos e não o desejo dos pais que deve ser afirmado.
Existe o déspota que dorme ao lado. Homem ou mulher que reprime e manipula com o poder financeiro, com afetos ou com a supremacia do poder centrado na figura identitária – o patriarca, o “homem como a cabeça da casa”.
De qualquer forma, a máquina despótica tem como fórmula, a mudança de eixo. Antes dela, a “aliança” entre o indivíduo e a vida é feita no jogo de forças – o corpo vai até onde pode. Depois da máquina instalada, o corpo já não pode saber o que pode. Está impedido de fazer experimentações, só lhe é permitido ir aonde o déspota diz.
Existem apenas dois modos de organização da vida dos indivíduos. O primeiro é esse da vida mesma. São as leis da natureza agindo e reagindo nos corpos - sem transcendência e sem limites. Os únicos limites são os da vida mesma. Assim como na vida de uma cigarra ou como nas espécies em geral que se organizam em torno das “condições de possibilidades” que os indivíduos experimentam.
O segundo modo acontece sobre o primeiro. Uma organização despótica se apossa da vida dos sujeitos, tira-lhes a autonomia, organiza os corpos e determina as regras. É o momento infeliz da separação do homem e da natureza.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Reversão... II

O cristianismo seria grego?

As sínteses II