Máquina paranoica
O
modo de operação da máquina paranoica é o mesmo da máquina de guerra. – são
sempre máquinas desejantes. A diferença é no nível dos agenciamentos que fazem.
Tanto as máquinas de guerra quanto a máquina paranoica são movidas por desejo.
É característica do desejo, ir aos limites do que pode.
A
máquina paranoica agencia o poder e o deseja sem limites. A máquina de guerra
não se identifica com o poder. Os agenciamentos dessa máquina se relacionam com
as forças da natureza com objetivo de aumentar a potência de agir – pode
parecer confuso por conta da noção da “guerra”. Nesse caso, não se trata da guerra
do Estado. A nossa “guerra” é sem armas de fogo. Fazemos uma guerra de
afrontamento ao intolerável com movimentos suaves. Colocar uma “rosa no fuzil”
da máquina militar é um afrontamento suave. Um homem sem armas pode parar um
tanque militar por um tempo curto, mesmo que, com seu afrontamento venha a ser
executado depois. É a imagem do afrontamento que permanece - um homem solitário
e sem armas desafia as máquinas de morte do império despótico chinês.
O
grafiteiro solitário, na imensidão urbana das grandes metrópoles, é uma potente
máquina de guerra contra a intolerável mercantilização da arte – ele faz arte
nos espaços vazios das cidades. Exposição a céu aberto sem ingressos pagos.
Contra as “palavras de ordem” dos grandes painéis do consumismo, o grafiteiro
nômade dependurado nas paredes. Não estou falando do pichador escondido nas
cinzas madrugadas, que suja a cidade – isso é outra coisa – me refiro aos
artistas que mostram a cara e pintam a luz do dia.
Os paranoicos no poder não desejam apenas o
domínio territorial restrito às suas fronteiras. É da natureza paranoica,
desejar o domínio do mundo e da natureza indo até o cosmos. O Führer não quer
apenas a Alemanha. O alvo é o mundo inteiro, mas não é o mundo posto, ele
deseja derrubar o mundo para fazer o seu mundo com a “cara do Führer” –
estética do nazismo.
Segundo
a Arquitetura da destruição[1],
Hitler desejava construir uma Alemanha para ruir depois dele. Em sua paranoia,
desejava ser objeto de estudo arqueológico no futuro – o paranoico odeia ser
esquecido. Desejava destruir Paris, Londres, Budapeste e outras belas cidades
da Europa para depois, construir outra sobre os escombros – fazer esquecer para
ser lembrado. Ele deseja dominar os povos, mas não se trata dos povos que lá
estão. Outro povo deveria ser criado. Após aniquilar toda a diferença no mundo
das etnias, inventar um homem de puro sangue ariano – uma raça branca de sangue
azul.
O desejo é desmesurado mesmo. O perigo são os
agenciamentos que operam em cada máquina. O paranoico reúne os maus
agenciamentos de máquinas de destruição – máquina paranoica, máquina
burocrática, máquina fascista... – Os paranoicos são sedentários, não deixam o
poder facilmente e fazem uso da máquina fascista para destruir tudo que lhes
opõe.
Os
ditadores são derrubados do poder, mas não antes de fazerem guerras de
aniquilação da máquina Estatal – como se diz popularmente, “depois de mim o
dilúvio”.
Nos
casos mais comuns, os tiranos paranoicos “apodrecem” no poder, mas cuidam para
que os filhos os sucedam – se perpetuam no poder por linhagens e dinastias.
As
obras faraônicas podem ter se tornado em monumentos da humanidade, mas foram os
paranoicos que construíram – com a escravidão de milhares. Governos paranoicos
- sejam déspotas ou democratas, são movidos pela grandeza de suas “alucinações”
– endividam o Estado, empobrecem e oprimem os povos. Perseguem os artistas,
aprisionam e executam os críticos e sonham entrar na eternidade – ditaduras e
tiranias são quase sempre, tempos de obscuridade, não devem ser esquecidas -
não por glórias ao tirano - mas pela marca do intolerável que deixaram.
Genocídios
no mundo são ações paranoicas - uma “alucinação” do poder tirano e de seus seguidores
que faz acreditar no mito de superioridade racial.
Só
no conflito de Darfur (Sudão, 2006), os massacres de minorias não-árabes da
região, por milicianos janjawid, somavam quatrocentas mil mortes, incluindo
estupros das mulheres que eram assassinadas depois com suas crianças.
O
método genocida dos janjawids inclui execuções de pessoas desarmadas, torturas
e contaminações das fontes d’água potável. O paranoico desconfia até de sua
sombra. Por isso, Moisés da Bíblia, também é um paranoico. A ordem era sempre
de executar todo mundo, não deixar nem raiz nem ramo. Uma criança sempre cresce
e isso aterroriza o paranoico que quer se perpetuar no poder.
Em
Ruanda (1994), os dados das Nações Unidas estimavam em oitocentos mil tutsis massacrados depois de torturados.
No
inicio do século (XX) um milhão e quinhentos mil armênios foram mortos - o que
ficou conhecido como o Genocídio Armênio.
O
maior alcance da paranoia foi sem dúvida o do nazismo – não pelo número de
vidas destruídas que pode ter sido superado pelas guerras iniciadas por
paranoicos - mas pela monstruosidade da teoria da destruição. Estima-se que,
mais de seis milhões de pessoas foram executadas, sendo a maioria de judeus.
O
idolatrado líder russo Stalin pode ter superado os números do nazismo. Suas
execuções, e mortes por outras razões, podem estar acima do imaginável em
relação a qualquer outro déspota. Os pesquisadores dizem ultrapassar em muito
os números do nazismo alemão[2].
As
organizações sociais se alinham ao poder paranoico e fazem as máquinas girarem
em torno de seu eixo. Alexandre levava junto com o exército, o maior aparato de
captura já pensado por um estrategista, sacerdotes e educadores em meio aos
soldados. As conquistas militares mais bem sucedidas são as que conquistam o
ser todo – do corpo à alma. Nenhum Estado tem sucesso total apenas com suas
guerras. Mas não devemos confundir uma máquina de guerra com o “aparato de
captura” que faz a guerra. Estados não possuem máquinas de guerra. Os Estados
de qualquer ordem operam com aparelhos de captura.
Nesse
caso, uma escola com seus professores, uma igreja com seus sacerdotes - entre
outras coisas - compõem os aparelhos de captura do Estado.
Mesmo
as famílias, podem trabalhar em favor do Estado – os pais como aparelhos de
captura. Um pai despótico no meio da família faz o papel do tirano de Estado –
a família como um pequeno território estatal.
Em
situação de ditadura nunca se ensinou tanto a família a “rezar junta para
permanecer unida” (Brasil de 1964). A união da família se faz mais em torno dos
ideais da ditadura de Estado e menos em favor dos ideais da família.
Quando
o Estado, faz de seus ideais os ideais da família, é por que uma máquina
abstrata agiu no seio da família convertendo os fluxos da família em signos de
Estado. Nessa altura, já não se distingue ideais de família de ideais de Estado
– tudo se transformou em uma coisa só.
Momento
crucial das instituições que se alinham ao poder ou se postam em favor da
resistência. Quando o intolerável se instala com a máquina paranoica, é uma
questão de “salvação” que entra em jogo. Precisamos ser salvos do intolerável
que se instala impedindo o desejo de afirmar a vida do indivíduo em detrimento
do desejo do poder que tudo oprime e barra.
A
autonomia das instituições e dos organismos - ou o comprometimento desses -
aparecerão como a “crise das instituições”. Entram em crise por que se opõem ao
intolerável ou por que deles passam a fazer parte revelando a verdadeira face
das instituições.
Uma
escola é um aparelho de captura quando a pedagogia esmaga todos os enunciados
das crianças. Quando a metodologia de avaliação cuida de “provar” a memória
passada dos alunos sem considerar os saberes tácitos que as crianças têm dentro
de si.
As
possibilidades de aprender são absolutamente negadas quando as “provas” não
servem para diagnosticar as deficiências do processo ensino-aprendizagem, mas
apenas testam a capacidade de memorizar conceitos – já se cria conceitos,
apenas se memoriza e se repete.
Daí,
Paulo Freire ter dito: “educação é política”. Não importando se direita ou de
esquerda, essas categorias não dizem muito. Vale saber se a educação está em
favor de uma paranoia ou da vida. O mesmo é válido para as demais instituições.
[1]Undergångens arkitektur
(Arquitetura da Destruição) é um documentário produzido e dirigido pelo
cineasta sueco Peter Cohen, que trata do uso da arte e da estética pela
Alemanha nazista. Foi lançado originalmente na Suécia em 1989. Fonte Wikipédia.
[2]Sobre o tema ver Steven
Rosefielde. Documented
Homicides and Excess Deaths: New Insights into the Scale of Killing in the USSR
during the 1930s. Communist and
Post-Communist Studies, Vol. 30, No. 3, pp. 321–333, 1997. University of
California.
Comentários
Postar um comentário