Fascismos moleculares
Não
existe formula mais estupida do que a do amante que diz “matar por amor”. E
delicada é a conclusão jurídica que se faz do “assassinato por amor” – um crime
passional que deve ser atenuado pelo fato de ter sido sob paixão.
Toma-se
o dito amor por paixão e o amante como vítima da mesma. Logo, todos nós, mais
ou menos, estamos sujeitos a matar nossos amores quando estivermos sob pathos – paixão de onde se origina a
palavra patologia.
Considera-se
que indivíduo não age inteiramente livre por estar patológico. E,
consequentemente, no momento do crime, não
teria a total posse das faculdades mentais – o criminoso estaria doente nesse
sentido.
Nunca
se ouviu tanto de amantes que assassinam suas mulheres por “amarem demais”. E de
amantes mulheres que se vingam por amor, matando a pessoa mais próxima do
amante – filhos, enteados, ex-amor ou qualquer pessoa que atinja o sentimento
do amante. Amantes assassinam seus filhos para provarem que têm “grande amor”
um pelo outro.
Mulheres e homens “apaixonados matam” por amor
desde sempre. É um “devir sombrio” que se desenvolve em silêncio no interior
das pessoas. Um desejo de posse do sentimento do outro muito mais do que a
posse do corpo.
É
possível possuir o corpo amarrando-o no cativeiro, mas nunca será possível
possuir o desejo que circula no corpo. Nesse caso, o amante que quer possuir o
ser todo, “enlouquece” e mata, para que nenhum outro possa ter o desejo que ele
deseja e não pode ter. Mata-se por impotência – nesse momento, do sentir
impotente, uma micromáquina de desejo se converte em máquina de desejo fascista.
É quando o humano, de forma equivocada, tem sido comparado ao animal. Não é o animal
que oferece perigo, é o humano que se desumaniza e já não é, animal nem um
humano do ponto de vista da civilização. É uma assustadora máquina de matar.
A
causa do ciúme louco é justo essa, a de possuir o desejo do outro. Que o desejo
não seja de ninguém – assim funciona a mente assassina do amante.
Antes
de se transformar em monstro assassino, o fascismo molecular é da ordem do
infinitamente pequeno – puro desejo. Um amor, puro e belo do amante mais
ardoroso, pode estar sempre na fronteira limite de se transformar em “devir
sombrio”[1].
Nesse momento, uma máquina despótica vai agitar o interior do indivíduo.
Não
há nada mais temível. É o caso do inimigo que dorme ao lado - na mesma cama.
Michel Foucault
diz de forma assustadora, “não se apaixonem pelo poder - essa coisa que nos
fascina e nos oprime”[2], o
desejo pelo poder.
O
problema é pensarmos no poder sempre longe de nós. O poder dos magistrados nos
tribunais, dos políticos, da polícia ou dos reis em seus tronos. Essas formas
de exercício do poder devem nos assustar - sempre que esses indivíduos fazem
uso do poder legitimo de forma ilegítima - tanto quanto o poder que exercemos
em nossas relações – desde que haja fascismos em nós.
Existe
o fascismo molecular na máquina despótica do Estado que apedreja mulheres em
nome da justiça. E existe o fascismo molecular dos amantes que assassinam por
amor – ainda se pode falar do fascismo molecular da multidão que assiste ambos
os casos.
Existe
um estranho gozo que aumenta a audiência dos “miseráveis programas” policiais
que exageram na exibição da violência. E algo se passa na estranha satisfação dos olhares na mórbida multidão que testemunha um apedrejamento – nos dois
casos, é um fascismo que se acha presente na multidão.
Nas
arenas romanas, a multidão ovacionava o gladiador que degolava seu rival. Em
nossos dias, uma plateia chega muito próximo do delírio quando o lutador de “vale
tudo” faz o sangue escorrer do corpo de seu oponente – evoluímos bastante nos
meios de transmissão das imagens. E evoluímos nas justificativas que damos ao
mesmo fato.
Ainda
existe um fascismo de multidão nada sutil que revolta parte da sociedade. Depois
de tragédias naturais, ou de outras, como no caso de Santa Maria. Os arrogantes
pregadores evangélicos – não todos – dizem ser coisa do demônio, por que os
jovens estavam longe de Deus – gozo sádico, desejo fascista de que Deus seja
realmente assassino de jovens felizes.
O
magistrado, o politico e a polícia não precisam ser temidos pelos seus cargos.
Em princípio, todos nós somos perigosos ou não, desde que haja fascismo em nós. Nesse
caso, somos todos patológicos.
Não
estamos salvos de nós mesmos estando “dentro de nossa própria casa” - uma alusão
à máxima freudiana, quando diz do inconsciente: “não somos donos de nossa
própria casa estando dentro dela”. Creio ter sido mais ou menos assim que ele
disse.
Carl
G. Jung diz de outra modo, “temos um lado sombrio em nós”. Carregamos
dentro de nosso inconsciente a luz, as sombras e a escuridão, ao mesmo tempo e
na mesma pessoa. É quando desejamos exercer o poder sobre o outro – o poder se
exerce nas relações em todo lugar – que não quer se submeter. Naquele momento, as
sombras e a escuridão, sobem à superfície de nossos atos.
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