Máquinas de guerra




É um modo de funcionamento que não tem relação com as batalhas dos exércitos, não tem armas de matar e não derrama sangue.
Estamos perseguindo a trilha do desejo. Nossa questão passa por linhas de intensidades que são flexíveis. Nunca se almeja o sedentarismo do poder. Desse lado não existe violência alguma. Não estamos do lado da maioria democrática que assume o poder, nem do lado das minorias que desejam a tomada do poder. Nossa questão estará sempre longe do trono do poder. E mais longe ainda, da guerra e de suas mortes.
 Uma máquina de guerra se caracteriza pelos deslocamentos contínuos, pelas velocidades que impõe, pela capacidade de confundir o inimigo. Não tem nisso, nenhum ódio ao inimigo. As “fugas”, as “escapadas” e outras estratégias, têm o único propósito de “salvação” do guerreiro.
Os ataques das máquinas de guerra têm mais relação com o guerreiro e menos com o inimigo. Trata-se da salvação do guerreiro e não tem nada a ver com a morte do inimigo.
O modo de funcionar da máquina de guerra afronta o inimigo, confunde, mas nunca mata e nunca derrama sangue. Não tem nenhuma relação com o poder, não deseja tomar o poder. Na verdade, a ausência de poder é o que caracteriza a existência das máquinas de guerra. O modo de funcionamento de poder se opõe à lógica de funcionamento das máquinas de guerra – a lógica do poder é o sedentarismo. Por outro lado, a lógica das máquinas de guerra é o nomadismo – deslocamentos contínuos, fugas repentinas, evasões sem fim, camuflagens e mimeses com a natureza – os tuaregues se confundem com as dunas de areia no deserto que se deslocam com eles.
É tudo isso que faz o funcionamento – suave - das máquinas de guerra. As máquinas sedentárias do poder, são ruidosas demais, violentas ao extremo, destruidoras de vidas. Essas máquinas destruidoras são os aparelhos de captura do Estado.
Não devemos nos distanciar do foco inicial que ainda é o desejo. E as máquinas estão diretamente relacionadas ao desejo – seja suave e gracioso ou ruidoso e violento.
Quando se fala de “aparelhos de captura” não se trata das capturas dos revolucionários simplesmente, da morte dos rebeldes e do aprisionamento desses. Isso pode ocorrer, mas nessas situações o alvo maior é o terror da sociedade em relação aos “fluxos rebeldes do desejo”.
Os poderosos de toda ordem temem isso – fluxos não codificados que perturbam a ordem sedentária do poder. Por isso, as máquinas de capturas trabalham loucamente para capturar, marcar e distribuir papéis definidos para cada indivíduo - os franceses chamam essa máquina de captura e codificação de máquina paranoica. O seu modo de funcionamento é paranoico por que corre atrás dos fluxos de desejo que nunca cessam de fazer rizomas com a exterioridade e dificultam o trabalho dos aparelhos de captura (Anti-Édipo).
Todo indivíduo ao nascer, é uma pequena máquina de guerra. Os bebês são maquininhas nômades, se deslocam continuamente, “não desistem nunca e esquecem fácil”. Os bebês são intensivos ao extremo, estão sendo tocados por afetos puros o tempo todo - a memória curta dos bebês é um modo nômade das máquinas de guerra. Por não terem ainda, a “grande memória” - memória dispéptica - dos adultos, os bebês se deslocam de um afeto ao outro, de um fluxo de desejo ao  outro – esquizofrenia dos bebês.
Nunca devemos tomar essas categorias – Estado, escola, família e igreja no sentido estrito de suas materialidades – a catedral gótica com seus sinos ou o Estado fascista com seus tiranos. Nunca será o lugar fixo do trono do poder, mas sempre os seus modos de funcionar na relação com as forças revolucionárias do desejo. Corremos o risco de restringir essas noções ao que já está vastamente colocado nos livros sobre a história e a política. Quando falarmos de revolução, não se tratará de nenhuma revolução dos revolucionários.
 Só vamos conseguir entender esses conceitos a partir dos modos de funcionar das forças em ação. Existem sociedades democráticas que permitem ao pensador nômade ir ao limite de sua criação. Existem teólogos nômades que saltaram para fora de seus mosteiros. Esses pensadores dão velocidade ao pensamento, seja na igreja ou na escola.
O grande Mestre da Pedagogia do Oprimido é um fluxo louco da filosofia educacional. O professor Paulo Freire, em tempos de repressão, não pôde exercer o seu método libertário no Brasil, mas encontrou fora de nossas fronteiras os espaços livres para continuar criando. As máquinas de guerra precisam de “espaços” cada vez maiores. O único limite dos nômades é a vida – Paulo Freire só parou de produzir no limite de sua vida. Ainda não estamos prontos para exemplificar o nomadismo religioso – fica para depois.

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