Estratos
Em
todo lugar no mundo tem as estórias infantis que os adultos costumam contar
para as crianças. Existem as boas e as más estórias.
Uma
pedagogia que não tem nada de inocente, mas que serve aos seus fins – criar
medo do castigo e fazer com que as crianças obedeçam as autoridades
constituídas -
A
história das estórias revela que, do “bicho-papão” ao “Éden bíblico”, trata-se
da criação e da organização do pensamento – são formas de adaptação das
estruturas da aprendizagem à moral vigente – uma taxionomia que leva em conta a
capacidade de aprender e assimilar do indivíduo em seu desenvolvimento. Do
simples ao complexo, são os mesmos objetivos de ensino. Existe uma política de
dominação no conteúdo das estorinhas infantis, assim como, existem propósitos
de submissão nas estórias dos adultos.
A
tramoia de submissão começa cedo, na formação de uma “consciência”.
De um lado, existe o
modo imanente da formação do aparelho psíquico, do modo como forças da natureza
se organizam em princípio de prazer. Economia das forças do desejo que se desdobram na distribuição da libido na relação com os objetos no mundo.
Essa
organização é imanente à natureza. Ou seja, acontece no indivíduo sem a
interferência das leis transcendentes dos órgãos sociais – sem família, escola
ou igreja. Nesse primeiro momento da vida individual, são as quantidades de
energia que se organizam na mente – Freud chama de aparelho psíquico. O desejo flui e é cortado por processos intrínsecos às máquinas do desejo. O
desejo é a energia que move tudo.
O
processo de livre escoamento é mecânico – uma pequena máquina emite um sinal e
faz um fluxo escoar. Na mesma proporção, outra máquina se conecta num sistema (liga-desliga) e faz o fluxo parar.
Os
autores do Anti-Édipo deram o exemplo
do peito da mãe e a boca do bebê que suga o leite – o seio tem suas pequenas máquinas (os
pequenos organismos relacionados que produzem leite) ele mesmo é uma
máquina. E na ponta, sugando o peito da mãe, uma máquina de sugar, o bebê.
Os
organismos de produção do leite são as máquinas que emitem o fluxo. E o bebê é
a máquina que suga e corta quando saciado. Essa relação é imanente à natureza.
Não depende de uma ordem externa para que aconteça.
Processo
semelhante acontece na formação do aparelho psíquico. As máquinas que emitem e
cortam os fluxos do desejo são interiores ao aparelho psíquico – na verdade, é
ele mesmo. Máquinas de máquinas são conjunções e ajuntamentos de peças que se
unem ao processo da natureza em nós – ora um fluxo escoa e, depois, uma
micromáquina corta - tudo acontece na autonomia das máquinas.
Por
outro lado, existem as máquinas sociais, essas são atrasadas em relação às
máquinas do desejo que já operam desde as primeiras formações do que vem a ser
um indivíduo.
No primeiro momento, estamos no plano das formações moleculares, são
micromáquinas. O desejo é um puro fluido de partículas pré-formadas – por isso,
molecular.
As
máquinas sociais se apresentam na figura dos pais ou qualquer adulto que cuida
do bebê. Depois, a creche, o jardim de infância, a escola. São etapas do
processo social. Em cada estágio do desenvolvimento da criança existem máquinas
sociais atuando. Nesse nível de relações formais, já estamos nas formações
molares – "senta aí e se comporte quando falo com você".
Uma
estorinha “inocente”, do “boi da cara preta”, é do lado da formação molar. O
adulto narrando a estorinha está a serviço de uma máquina social.
As
estorinhas infantis servem a todo propósito, só depende das torções que se
empresta a elas – efeito manipulativo do desejo do contador das estorinhas.
Vejamos um exemplo:
-
No vale silencioso, em meio às altas montanhas, corre um rio de águas claras.
De um lado do rio, vivem os poucos moradores em suas casas branquinhas. As
crianças correm de um lado para o outro, mas bem próximas da margem do rio que
dá para o lado de suas casas. Elas podem até brincar no rio, mas nunca
atravessar em direção à outra margem. É que, do outro lado do rio, se esconde o
papa-figo – essa é uma forma
de dizer, do bicho de aparência monstruosa, que come o fígado de crianças
desobedientes. Esse diabo (meio homem
meio monstro) tem uma doença que faz crescer as orelhas e os olhos. Com seus
grandes ouvidos, escuta até pensamentos. E com os grandes olhos, ele penetra
paredes, fazendo com que possa ver as crianças o tempo todo. Ele sente dores insuportáveis
durante as noites quando seus olhos e orelhas continuam a crescer desmesuradamente.
Só existe um remédio para esse pobre diabo – dizem os contadores da estória -.
Ou seja, comer o fígado de criança desobediência. É claro, a desobediência inclui
atravessar o rio e, pior, pensar em atravessar o rio. Não se pode nem desejar as frutas do outro lado. Que tragédia!
O
proposito da máquina social, seja escolar ou religiosa, é o de fazer estratos – blocos fixos de desejo em
formas identitárias. Uma criança “obediente” tem o rosto da identidade que se
impõe. Não que a obediência seja ruim. Estamos querendo dizer da formação de “quadros”,
“blocos”, “estratos” de submissão.
São
enquadres de segmentarização, de linhas rígidas que funcionam como milhões de
vozes ecoando vida adentro – “palavras de ordem” - dizem Deleuze e Guattari.
Do
“outro lado do rio” pode ser muita coisa. Um mundo de descobertas que se mantém
afastado do pequeno “mundo seguro” das crianças. O mundo que se mantém longe da
curiosidade natural das crianças: as respostas que nunca se dá por razões morais,
o conhecimento negado por conflitar com as crenças e valores da família, as
descobertas frente aos indefinidos.
A
margem do rio é o limite transcendente que se impõe a vida. É o “não” que vem
de cima sem explicação e que impõe a forma de autoridade sobre os fluxos do
desejo, moldando-o em identidades globais. Momento crucial em que uma lei de fora cai sobre a vida e afasta o indivíduo
de tudo aquilo que pode – a outra margem do rio é todo o resto.
O
lado seguro é o da linha dura que impõe sem explicar. Por isso, a necessidade
de uma estorinha. As estorinhas são as primeiras manifestações do fascismo em
nós. No exterior, é uma estorinha inocente contada pela mamãe, pela titia da creche.
Mas no interior do indivíduo, são as máquinas desejantes que começam a funcionar
mal. Os pais não sabem que as primeiras manifestações de neuroses são da ordem
da repressão do desejo - por isso, a neurose é um traço comum na coletividade, sendo diferente apenas em suas formas miseráveis que humilham e derrotam.
Da
casa à escola passando pelas máquinas sociais da igreja. São milhares de estórias que se contam e se
escuta comportado em seu assento - da
casa à escola. E nesses dias, diante de aparelhos de mass mídia.
Estratificar
uma mente é dar forma ao comportamento. Mas tudo deve começar impedindo as
experimentações, do pensamento e da própria vida, que envolve modos de pensar e
agir.
Uma
linha é traçada no horizonte para que, do outro lado, tudo possa parecer perigoso.
Todo ato de transgressão tem, de imediato, o castigo que a acompanha e que vem do
outro lado da linha do horizonte.
É
o “juízo de deus” que se introduz em formas infantis – "é muito perigoso pensar" - dizem os sedentários de plantão. É odioso saber muito além das delimitações
impostas.
O
papa-figo é onisciente e onipresente em suas formas mais perversas – o outro
que sabe do pensamento que se pensa sem que se saiba que sabe, é cruel. Ser olhado pelo
outro sem ver, é terrível – ele sabe de tudo na espreita, com o único propósito
de vigiar e punir.
Nisto
consistem as formas severas de culpa falsa dos indivíduos que não conseguem
andar adiante. Eles trocam “todo o resto” por uma vidinha miserável do lado
seguro, mas culpam-se por desejar ter ido além da linha e culpam-se por não
terem ido.
É
a forma mais sutil de uma micropolítica fascista que se faz em cima das
crianças. Também é o momento em que, o desejo se transforma em desejo de medo.
Ou, em suas formas mais perversas, em neurose fóbica, quando as máquinas
sociais in-moralizam o desejo ao ponto do indivíduo ter vergonha do próprio desejo.
O
fascismo dos adultos passa para o lado das crianças na troca sombria, dos
fluxos de estorinhas, em favor dos fluxos de obediência – está formada a
trapaça.
Não
estamos questionando a inexorabilidade das formações sociais, mas seus modos de
operar. Os pais podem estimular os filhos a irem cada vez mais longe, podem encorajá-los
a traçar suas próprias linhas, para depois, eles mesmos determinarem seus
limites no, avançar ou recuar, conforme as experimentações.
E
que os limites sejam sempre o porvir que nunca chega. Que seja o limite da vida
mesma.
Iso foi a aula de hoje. Saiba que a partir de hoje passei a ter um olhar diferente para o senhor, passei a me interessar pela sua disciplina, passei aquerer entender realmente o que eu achava que eram as ^suas viagens^. Extremamente importante o que voce escreveu e me faz refletir muito sobre mudan~cas na forma de educar uma crian~ca. Obrigada!! Marcia Benicio
ResponderExcluir... prova que a nossa falta de interesse pode vim de não estarmos entendendo o mundo.
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