Máquinas


 

Lembramos que esse conceito, desenvolvido no conjunto da obra Capitalismo e esquizofrenia (Gilles Deleuze e Félix Guattari), se encontra mais bem elaborado no volume O Anti-Édipo. A obra toda está traduzida para o português e publicada pela Editora 34. Existe uma tradução brasileira muito boa de Luiz B. L. Orlandi.

O conceito de máquinas está diretamente relacionado à questão do desejo. Por isso, a noção de “máquinas desejantes”. Pode parecer confuso pensar em “máquinas” quando se fala do desejo.

O que nos vem à mente é sempre o maquinismo técnico de inspiração cartesiana – do corpo funcionando como máquina. Ou, das máquinas técnicas de produção de produtos de consumo.

Olhando diretamente n’O Anti-Édipo, é possível perceber que os autores têm inspiração de diversos campos de conhecimento ao elaborar o conceito de máquinas. Do vitalismo biológico ao maquinismo técnico, existem muitos “pedaços” de muitas áreas de conhecimento. Eles foram “catadores” – bricoleurs, como dizem no começo do livro.

O sentido que mais importa, parece ser o modo de funcionamento da vida dos indivíduos em meio à imensidão da vida mesma – “pré-individual, pré-subjetiva, imanência pura”, como diz Deleuze.

Os organismos vivos funcionam numa lógica maquínica em ligação plena com a vida pré-individual.

As máquinas técnicas operam por sistema de ligação com uma fonte de energia que as fazem trabalhar na produção de seus produtos. A questão é que não se pensa as máquinas em suas múltiplas conexões. Pensamos nos fios da tomada de energia elétrica, no homem operando a máquina, mas não pensamos nas conexões exteriores e interiores do mundo que envolve o maquinismo todo.

O sistema           que, liga-desliga as máquinas técnicas deixa de fora o grande universo co-extensivo das máquinas. Uma máquina não é apenas aquilo que se enxerga. A fonte de energia de uma máquina não é o fio e a tomada na parede – o quadro de energia com seus botões liga-desliga. Existe um universo maquínico no exterior da fábrica que se liga à máquina. Existe um maquinismo no homem operando a máquina. A própria máquina é máquina de máquinas.

Cada peça que compõe uma máquina é uma pequena máquina que se remete à sua vizinhança – máquina de máquinas. É um termo de ligação, de continuidade no tempo e no espaço.

Hoje, uma máquina que se apresenta tal qual se encontra, é o resultado de um longo processo de evolução maquínica – phylum maquínico. O bate-estaca é uma máquina que, no processo evolutivo, deriva da marreta dos ferreiros medievais – phylum maquínco temporal.

 Por outro lado, as máquinas se conectam aos espaços atuais com outras “máquinas” que se localizam muito além dos territórios das fábricas.

A energia que move um motor vem de muito longe na natureza. Por sua vez, a natureza em suas subdivisões – água, ventos, sol, e o uso que se faz disso – são indivíduos que se conectam uns aos outros até o limite de sua aplicabilidade.

O homem enquanto operador da máquina, não está isolado de nada nesse universo Ele mesmo é um sistema maquínico – máquina não técnica – operando uma ferramenta técnica. Esse é o sentido do termo, máquinas de máquinas.

As máquinas técnicas têm suas peculiaridades. Elas são operadas pelo homem com fins de produção. Esse exemplo infantil é dado pelos criacionistas de todo tempo – “tudo teria um designer e um propósito na vida” - dizem sem inovar em nada. Esse modo de pensar vem da lógica tecnicista, onde nada seria feito sem propósito.

Tudo vai se confundir quando entrarmos nos planos do maquinismo que se encontra muito além das máquinas técnicas – são as máquinas do desejo.

O funcionamento das máquinas desejantes é de outra lógica. Nesse plano não se produz produtos finais, apenas se produz. Inclusive se produz o produzir.

Obs. continua

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