Submissão V
Na
realidade mitológica, os gregos parecem ter mais consciência do que o ocidente
judaico-cristão. Para eles, é tudo representação do jogo de forças, agindo e
reagindo no mundo. O grande erro ocidental é tomar essas forças como se fossem
entidades mesmas – Deus e o Diabo. O “diabo cristão” só existe em relação aos
moradores da Terra. Não se pode imaginar a presença do diabo fora da terra. Mas
no caso grego, onde os elementos são forças, o cosmos é a dimensão onde tudo se
dá. Ou seja, onde houver espaço, existirá um jogo de forças em ação. E
consequentemente, em qualquer lugar pode estar existindo uma espécie de criação
nova.
Os
gregos usam as noções de forças desmensuradas e forças mensuráveis,
complacentes e rebeldes. O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche diz que são
forças ativas e forças reativas. O pai da psicanálise fala das mesmas forças
como sendo duas qualidades de pulsão – de morte e de vida, de conservação e
demolidoras.
Os
gregos são os primeiros a dizer do desejo como causa de sua própria repressão.
Mas tudo se dá no jogo de forças. As entidades são apenas representações das
forças.
Zeus
não existe como o Deus judaico-cristão – ora amando e ora odiando a sua criação,
irritado com a desobediência e feliz com a submissão.
De
fato, os deuses da mitologia grega têm todas as características humanas – eles
são polígamos, gostam de vinho, de dança, fazem guerra, se arrependem, são egoístas,
punem e são punidos. Não raramente, eles descem o olimpo e fazem a farra com os
humanos. Zeus tem suas amantes humanas, igualmente as deusas, que têm seus
amantes humanos. E Baco – um lado mais perverso de Dionísio – perigoso com suas
bacanais na floresta, um pouco parecido com nossas festas raves da atualidade – as bacanais eram a desmensura total.
Não
percamos de vista esse fato, essas figuras “divinas e diabólicas” ao mesmo
tempo, são as qualidades das forças agindo e reagindo no mundo e nos humanos.
Quando
existe um confronto entre as divindades, não são personalidades identitárias que
ali se encontram, são forças em relação. Por isso, é dito por Nietzsche, “só
uma paixão incide sobre outra”. O abstrato – deuses e entidades diabólicas –
não podem reprimir o concreto, nem mesmo podem tocar as partículas pré-formadas,
que é o desejo, sem alterar a sua velocidade.
Espero
estar esclarecendo - no campo das forças que inclui o desejo, são elas mesmas
que se agrupam, se dispersam e se reagrupam em forma de sínteses – passivas a
ativas. Ora se somam, para conservar e ora se confrontam e se dissipam nas
formas anteriormente criadas. Não se pode falar de repressão nesse caso, mas de
relações e manejos de forças.
A
repressão só vai aparecer no jogo político. Nesse momento, já não é uma força
agindo sobre outra, mas de um poder agindo sobre forças. Seria ideal que a
política se fizesse no jogo de forças das habilidades de negociar e menos no
jogo do poder.
A
sociedade se define pela separação da natureza. Vimos isso nas explicações
míticas dos começos e das separações – natureza de um lado e cultura do outro.
O
que a sociedade mais teme são as forças da natureza agindo no homem. O terror
de toda sociedade são os fluxos livres de desejo agindo em seu meio.
Nós
sabemos de onde vem a natureza, mas não pensamos de onde vem a sociedade.
Sabemos que o desejo é natureza.
E
pensamos que a sociedade é algo natural que caiu do céu pronta. Mas não
é.
A
sociedade é invenção dos homens, mas o homem enquanto “bicho” é natureza. Nos
dois mitos que citamos – do Éden e do assassinato do pai da horda primitiva –
se está falando da mesma coisa – do nascimento da sociedade, do como a
sociedade se organiza.
Ou
seja, antes, o homem vive com a
natureza sendo ele mesmo natureza. Sem consciência de si, sem noção de separação,
pois esta não existe. O homem vive submerso na natureza sem ter consciência
disso – o nascimento da consciência inaugura a separação – assim dizem os
mitos.
O
nascimento da sociedade é marcado pela tragédia em relação ao desejo. É o fato
de desejar (desmesuradamente?) e ser punido – pelos deuses - que leva o homem
ao “acordo entre as partes”.
O
pacto entre as partes, nos dois sentidos, horizontal e vertical, que faz nascer
a sociedade – é claro que ela se aperfeiçoa. A questão central ainda é a
repressão do desejo.
Nos
dois casos, a razão é o desejo ou o fato de desejar. Então, não é a sociedade
que reprime o desejo, mas o modo como ela se organiza.
A
culpa e o medo do castigo faz nascer uma contra força - um desejo de não desejar. Não se pode destruir
uma força, só é possível manejá-la no mesmo nível de forças.
Obs. continua
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