Submissão IV




O desejo (libido) se encontra em estado puro em forma de singularidades impessoais pré-individuais e pré-subjetivas.
O desejo no bebê é um campo de variação intensiva que atravessa todo o corpo. Na relação com o outro que cuida – de toques e carícias - o desejo se transforma em energia libidinal. O bebê mamando no seio, não sacia apenas a fome, mas experimenta prazer na relação com o corpo da mãe.
Não se trata do ato frio de saciar a fome do bebê, mas também da troca de energias prazerosas entre os dois. Nesse momento, os corpos são entidades de corte-fluxos de desejo. O seio possui suas micromáquinas de emissão de leite. A boca do bebê é uma máquina de sugar.
Não é apenas isso, o fluxo material do líquido salta para os fluxos de circulação de energia libidinal que, nesse momento, não tem nenhuma primazia sobre áreas específicas do corpo – todo o corpo é uma zona erógena. Não existe culpa, e o complexo de Édipo da psicanálise não faz sentido algum nesse caso.
Ainda não existem a falta nem o complexo de castração. O desejo flui livremente, só é regulado pelo princípio de prazer que se organiza de forma imanente ao aparelho psíquico – da mesma forma que um organismo se organiza na natureza. O outro existe, mas numa relação horizontal que se limita a cuidar, como se cuida de uma planta que acaba de nascer. As leis são apenas as leis da sobrevivência do indivíduo. Os fluxos de desejo fluem e são cortados na medida das capacidades dos corpos. Os cortes e fluxos são desvinculados de qualquer subjetividade, de qualquer valor de bem ou de mal. O que regula o sistema corte-fluxo são as singularidades variáveis entre si – uma micromáquina corta e outra emite sem as determinações de valores transcendentes – sem deus, sem pai.
 Em relação à sexualidade, nesse momento não existem as categorias heterossexuais, homossexuais, nem bissexuais. Essas serão criadas na cultura. O individuo é apenas sexual – o corpo só entende a linguagem do prazer-desprazer. O corpo age positivamente no prazer aumentando a potência de agir. E reage negativamente ao desprazer diminuindo a potência de agir – o prazer é uma energia de aproximação que alimenta junto com o leite que é sugado – pulsão erótica ou de vida, segundo Freud.
O processamento da energia libidinal não se classifica por individuações fixas, do tipo isso ou aquilo, mas por conexões sem fim numa cadeia de sínteses passiva que se remete às conjunções “e”, “e”, “e”, depois outras sínteses. É o mesmo processo que faz sínteses na natureza, cada conjunção se remete a uma síntese, cada síntese é uma “escolha” que a vida individual opera para alcançar seus fins – o crescimento, a expansão, as subidas.
Se existe uma ética da natureza, essa ética deve ser deixar crescer, deixar ser o que é. Não existe coisa mais ridícula do que submeter os animais a um estilo de vida humana – vestir cachorros como se fossem pessoas.
A questão que ficou acima é a do “como” o desejo pode reprimir o próprio desejo? Já percebemos que esse pequeno bebê não poderá sobreviver no mundo da forma como está organizado junto à natureza – essa é a entrada no mundo.
A “separação da natureza” é a questão crucial na história humana. Os mitos são as tentativas de se contar a história da separação. É sempre uma tragédia – o assassinato do pai da Horda Primitiva e o mito do Éden são as grandes narrativas do ocidente. No primeiro caso, os filhos assassinam o pai para terem acesso às mulheres. No segundo caso, o homem é expulso do jardim por ter tido acesso à árvore do conhecimento.
Nos dois casos são transgressões necessárias – para ter acesso às mulheres e para ter conhecimento. As duas situações são complementares, o acesso às mulheres garante o prazer e a procriação. O acesso ao conhecimento garante o progresso da civilização. A civilização nasce do pacto entre os homens – no sentido horizontal – e entre os homens uma divindade – no sentido vertical. O pacto evita o parricídio e garante a distribuição do prazer – funda a relação de parentesco. E, por outro lado, funda a submissão a uma entidade transcendente.
 Na fundação da cultura, a questão é o desejo. No caso grego, os mitos se revezam da mesma forma. Zeus pune os deuses menores pelos excessos. Sempre está em jogo uma luta contra o desejo desmensurado. Os titãs são a desmensura personificada, por isso são aprisionados para sempre.
Não esquecer que na mitologia grega, as figuras divinas são representações das forças que agem no mundo. Os titãs são a representação dessas forças desmensuradas em nós, são as forças de demolição no cosmos.
O sentido da desmensura será sempre definida por Zeus,  como é o caso de Prometeu que rouba o fogo do olimpo para dar aos homens. Zeus entende que, nesse caso, é uma ação desmensurada, pois os homens vão evoluir fazendo uso do fogo – o fogo, na mão dos homens desenvolveria a ciência e a tecnologia, o que os tornaria muito poderosos.
Nesse caso, Zeus está em relação com o Deus semita que expulsa o homem do jardim do Éden e o pune com a morte por ter desobedecido ao comer do fruto da árvore da ciência – a ciência faz o homem ter consciência como Deus, para a divindade, uma desmensura.
O fogo também representa as paixões nos humanos. Vocês sabem, Prometeu foi punido severamente. Foi amarrado por Zeus num montanha para que uma ave viesse todo dia comer seu fígado. Durante a noite o fígado regenerava – os gregos já sabiam dessa característica do órgão – para que, no dia seguinte a ave voltasse a devorá-lo. Não sei o que é pior, nascer sabendo que vai morrer ou anoitecer sabendo que no dia seguinte uma ave de rapina vem lhe comer o fígado. Nos dois casos, é a mesma coisa, sob a vontade dos deuses, os homens e os semideuses são punidos por desejar de mais.
Agora já estamos em condições de entender o porquê da repressão do desejo pelo próprio desejo.

Obs. Continua na próxima postagem.

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