Oikos – casa
As
palavras na língua grega são muito ricas em sentido. Nesse exemplo – oikos - vai muito além de uma casa como
conhecemos - lugar de quatro paredes com divisões para dormir, comer, e fazer a
higiene pessoal. Oikos se remete ao
conceito atual de ecologia. O ambiente inteiro como morada. Não a morada do “homem
senhor da natureza”, mas de todas as vidas que nele existem.
Vamos
avançar mais na riqueza de sentidos do termo. Pensemos no ato reflexivo de produção de
subjetividade – de tudo que entra na cabeça dos indivíduos humanos, faz uma
dobra no psíquico, e sai na forma de representar o mundo. Essa dobra é a maneira
do ser humano ver o mundo – uma força nos atrai para as coisas, e outra, nos
impõe o agir na representação desse mundo.
Dessa
forma, há um sentido mais extenso para oikos,
quando voltamos nosso pensamento para áreas mais secretas de nosso desejo, onde
tudo é por ele determinado. Assim, pelo lado de dentro de nossas percepções, é
possível que destruamos nossas “ficções imbecis” - como diria Espinosa.
A
natureza é regida por leis necessária, mas sob nosso olhar, tudo parece
funcionar com finalidades e contingências – como se a natureza estivesse a serviço de nós
mesmos.
Pensamos que a chuva cai por que somos amados por alguém lá em cima. Mas,
as evidências dizem que chove no mundo por existir evaporação nas águas. Há
lugares de pouca chuva e outros onde chove muito. Lugares com muitas águas,
outros nem tanto. E existem os desertos. Seria o caso dos deuses só fazerem chover
onde amam as pessoas? Nesse caso, os tuaregues seriam abomináveis aos olhos
divinos. Esses nômades das estepes vivem no deserto, mas têm prudência ao se afastarem dos pequenos oásis.
As
chuvas não têm a finalidade de beneficiar a agricultura. Os agricultores apenas
se organizam em torno das águas que caem das chuvas ou que correm nos rios por
constatarem a relação entre água e desenvolvimento das plantas.
As
frutas nas árvores, também não estão por aí por que precisamos comer. Precisamos
comer e desfrutamos do mundo que aí está. São leis necessárias, elas existem
por si mesmas sem finalidade de atender aos desejos humanos. Os desejos e as necessidades
dos indivíduos descobrem e se beneficiam delas - elas existem indiferentes a nós
mesmos. Pesquisamos as fontes de vida e nos apropriamos delas.
Aqui
se encontra uma cisão homem-natureza - esquecemos que nós mesmos somos
natureza.
Sempre
que a natureza contraria o “desejo” do homem, ela é tomada como um mal, cuja
causa seria divina – um deus zangado que nos está punindo por nossas más ações - dividimos
a terra e o céu.
Mas sempre que a natureza se encontra perfeitamente
harmonizada com nossos desejos, quando nos conforta e nos alegra, deve ser por
que o mesmo deus se encontra feliz com nossos atos e decidiu nos abençoar.
Desta
forma, esse deus - desde tempos primevos - merece ser adorado por meios de
cultos e sacrifícios.
Todo
sistema de “obediência” a entidades Ideais
nasce dessa percepção – há momentos em que deus está feliz e nos abençoa (é quando
tudo nos vai bem) e, em outros momentos, em que ele está zangado, nos castiga
(quando temos tempestades, enchentes ou secas. Ou ainda, quando se está doente),
é a ira de deus sobre nós – Os indivíduos que pensam assim, não podem perceber
que estão projetando nessas ideias, as imagens que eles mesmos têm dentro de
si: imagem condicional de uma autoridade que pune e recompensa – o pai, o
professor, o policial, o juiz. Mas há os que se beneficiam disso construindo
riquezas pessoais.
Tudo
parte das sensações recebidas no sistema sensório motor e que, depois, sob a
ação do desejo, é decodificado em sentidos por nossa subjetividade seguindo os
valores que carregamos em nossa cabeça – nossa subjetividade é morada de
sentidos.
O
lugar da subjetividade é o oikos –
nossa verdadeira morada. Lugar de onde se vê tudo em perspectiva – por isso, o
“mundo é perspectivismo". O único lugar de onde não podemos escapar
jamais. Como caramujos, carregamos nossa casa em nós. Ela anda junto, seja lá
para onde quer que se vá.
Não
existe separação entre uma coisa e outra, somos a nossa própria casa, moramos
dentro de nós mesmos. A forma como estamos subsumidos na cultura determina
nossa casa e, de dentro dela, colocamos o cosmos em perspectiva.
Não
há nenhuma possibilidade de nos ausentarmos de nós mesmos. Somos prisioneiros
desse oikos.
Assim,
é possível imaginar quantas crendices imbecis regem nosso mundo dos sentidos.
Uma pessoa de “grandes” convicções não passa de alguém bem fechado em “sua
casa”. É preferível não ser guiado por tantos fundamentos, pois se trata de uma
“casa” muito ajustada.
É
preciso abrir janelas nessa casa. Escancarar as portas e colocar telhado de
vidro. Se possível fosse, seria bom ter paredes de vidro nessa casa.
E,
de vez em quando – como num processo esquizofrênico - fugir dela numa linha de
fuga extensa.
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