Eros – imortalidade na mortalidade


Segundo Plotino (Enéada II), “os seres vivos da terra deixam de existir; só as formas ideais das espécies persistem; possivelmente um processo similar se realiza no Todo”. Os seres morrem, mas as formas nunca, pelo menos o que mantém as formas, se repete nos novos seres. Parece ser esse o sentido em Plotino.

De outra maneira, muito tempo depois, Gilles Deleuze diz do germe que permanece no interior das formas abrindo novas possibilidades de seres, não necessariamente idênticos.

 Voltando alguns passos antes de Plotino, no Banquete com Sócrates, Platão descreve as qualidades de Eros. Um deus que é filho de uma pedinte – Pênia - com uma divindade, Póros, cujo sentido do nome é esperteza. Por parte do pai, imortal e por parte da mãe, Eros é mortal.

Em nossos dias, possivelmente inspirado na filosofia, Freud desenvolveu a bela teoria das pulsões: pulsão de morte e pulsão de vida. Uma força leva à destruição tudo que a outra quer conservar. E a criação se dá no jogo pulsão de vida e pulsão de morte. Ou seja, tudo encontra seu destino ao morrer.

Parece haver certa correspondência entre Freud e Nietzsche quando esse diz, “a vida é um jogo de forças entre conservação e destruição”. A eternidade é paradoxal, ela existe na união dos opostos, criação e demolição.

A permanência está diretamente liga à impermanência. As coisas só permanecem em sua mudança.

Foi Heráclito de Éfeso o primeiro a dizer da impermanência constante que deixa tudo em estado de devir.

 “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários”.

O que há de eterno no mundo? A mudança contínua de tudo. O vir-a-ser de um fluxo contínuo parece ser a vida mesma. Fluxo de fluxo, transmitindo vida de um organismo a outro, modificando-o na relação com o meio e no jogo de forças.

Dessa forma, a trilha é a mesma: uma divindade de duas faces, mortal e imortal – Platão. A forma ideal que renasce nos seres e nas coisas – Plotino. O jogo de forças – Nietzsche. Criação e demolição, pulsão de vida e de morte – Freud. Ou, o germe que transmite vida, do organismo que se despede do mundo ao organismo em vir-a-ser – deleuze.

A eternidade parece ser assim, contrária ao paraíso idílico e suspenso onde nada varia.

 

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