Submissão III
Não
é simples reprimir o desejo no plano de uma politica de Estado. É preciso que
seja algo mais sutil para que aconteça sem que o submetido venha a se dar
conta. São necessários longos processos com início na mais tenra idade –
processos de subjetivação que se iniciam no nascimento e terminam ao final da
vida do sujeito - Félix Guattari faz uma diferença entre molar e molecular – a
política no nível molar se remete às grandes estruturas políticas dos partidos
e sindicados. E uma micropolítica que se identifica com as formações
moleculares por se tratar de planos micrológicos que passam imperceptíveis no nível
da consciência que já é de formação molar.
O
desejo é pré-subjetivo. Ele existe em forma de fluxos que atravessam os corpos. Não
se relaciona a objetos que faltam ao indivíduo e não se destina a eles. É o
indivíduo mesmo que, movido por puro desejo, cria a falta e os objetos – mas nada
falta ao desejo por que ele preexiste a tudo.
Os
indivíduos são corpos e pontos de interceptação dos fluxos do desejo no momento
em que existem no mundo. O corpo de um indivíduo é ponto de convergência e
dispersão de fluxos. São micropartículas pré-individuais e pré-subjetivas que fluem
nos corpos independentes e livres de uma vontade de um indivíduo subjetivo – os
fluxos são a vontade de todas as vontades.
A
característica dos fluxos de desejo é a mesma da potência e da força
(Nietzsche), da vontade (Schopenhauer) e da libido (Freud). Ressaltamos o fato
da libido se encontrar a posteriori
de uma organização do aparelho psíquico, ou seja, a serviço do princípio de prazer que está antes da formação do Super ego. Essa instância já é o Estado em nós, a família em nós, a igreja em nós.
Não se pode confundir o princípio de
prazer com as forças repressivas do princípio
de realidade. As forças repressivas da sociedade são formações molares. A
civilização não cria o princípio de
prazer, esse é imanente às organizações do corpo em relação aos fluxos do
desejo – é uma organização ateia, livre de valores morais.
O princípio de prazer está a serviço dos fluxos de desejo, é o livre fluxo. Tudo
vem antes da repressão social. Nesse nível nos encontramos em planos de uma
micropolítica. Colocamos o desejo do lado de uma micropolítica – formações moleculares.
Pensando
a partir da física atual, não se pode conceber que uma organização de nível molar
– o Estado, uma igreja, um sindicato ou mesmo a família - possa reprimir um
fluxo que é da ordem molecular.
As
partículas de fluxos de desejo são da mesma ordem que as partículas pré-formadas
ondulantes e oscilatórias da matéria
que não se pode observá-las sem que mude de natureza.
Sendo
assim, a sociedade não tem poder para reprimir o desejo. Quem reprime o desejo?
Só uma força de igual valor pode conter a força de igual natureza. Ou seja, o
desejo reprime o próprio desejo. Mas como isso se torna possível?
Obs. Continua na próxima
postagem.
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