Submissão VI



 

O fundamento do mundo é desejo - condição necessária da liberdade de todos os seres vivos. Desejar é o ato supremo da existência de qualquer vida orgânica.  Os organismos se movem por desejo, mas já não se pode pensar o desejo restrito aos objetos como se existisse um objeto que respondsse ao desejo.

 Todo movimento da vida, todas as funções orgânicas – incluímos o mental na categoria de organismo – os sonhos, as volições, as angústias e dores, tudo tem como fundo a energia desejante.

Desde um organismo unicelular - passando pelos vírus e por bactérias, até chegar ao homem - a força que move esses indivíduos a nutrirem-se e a reproduzirem-se até o seu limite de existir, é desejo.

Mesmo os organismos que se classificam como “malignos”. Eles crescem e nos devoram, impulsionados pelo mesmo desejo que faz um jardim florir.

Na verdade, a malignidade não passa de um conceito  moral que não funciona na relação com a natureza. Chamamos “maligno” a tudo que nos escapa ao controle e que nos causa pavor. A arcaica moralidade idealista burguesa vê nos fluxos livres do desejo o seu maior terror. Qualquer estranheza será tomada em relação às sombras da malignidade.

As pequenas máquinas de codificação dos fluxos de desejo não são as megamáquinas do Estado – fico devendo maiores explicações sobre a noção de máquinas.

 A sociedade cria máquinas de repressão numa relação muito restrita ao interior das famílias. Geralmente tudo começa entre dois ou três. Numa relação dual ou no triângulo familiar. Não é preciso ser cristão – do tipo que vai à igreja - para que seja atingido pela vergonha de desejar – o ocidente é judaico-cristão. São os modos de subjetivação que determinam as relações de forças no jogo de poder.

Depois do tempo da “disciplina” do corpo, tempo dos suplícios da carne dilacerada, do sangue escorrendo nas praças, ainda nos encontramos no tempo do “controle”. Não é mais a mesma máquina de fazer doer – quanta dor! Sobre a “sociedade disciplinar”, lembra Foucault que,

“Damiens fora condenado, [2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Grève, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento” (Foucault, 1987, p. 9).

E assim foi. Damiens foi supliciado ao longo do dia na presença de Deus e do povo. A cada suplício seguido de gritos de dores dilacerantes, clamava: “Perdão, meu Deus! Perdão, Senhor”. Mas, de que adiantava? A igreja o condenara em nome de Deus.

Não bastava condenar o criminoso? Não, era preciso causar dor. O suplício tinha que ser na praça pública. A disciplina do corpo visava o controle do desejo das massas – fazer sofrer, dilacerar o corpo, cortar, espetar em estacadas até a morte. Nietzsche diz com clareza, “fazer do bicho homem um animal que possa prometer”.

Por forças do Estado, talvez seja esse, o primeiro momento do desejo à submissão.

Obs. continua

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