As salas das máquinas



É só um modo de dizer - “salas” - dos mundos que se compõem e se opõem muitas vezes.
As máquinas não são metáforas de máquinas, são realidades materiais palpáveis. São modos de funcionamento do mundo sem a clássica separação de meio ambiente e o resto. Natureza e cultura compõem o ambiente que temos – o mundo - são “as salas das máquinas” com seus múltiplos sons e ruídos. O termo “máquina” se remete ao desejo e ao seu modo de funcionamento. O desejo é máquina de agenciar tudo.
Mas não existe nenhuma garantia quanto a qualidade dos agenciamentos. O desejo, sempre opera por agenciamentos, que podem ser afirmativos da vida ou de negação dela – negar a vida é não ir ao limite do que se pode.
As máquinas são os modos desejantes dos agenciamentos. Quando as máquinas são de natureza fascista, os fluxos de desejo são capturados e marcados para o fascismo – a juventude do nazismo alemão, por exemplo.
Um poder despótico cria uma máquina despótica, captura fluxos de desejo, codifica e marca tornando-os sombrios.
 Existem os casos em que o desejo escorre livre em direção à natureza e aos modos múltiplos de afirmação da vida. É o que os autores do Anti-Édipo demonstram no caso do “passeio esquizofrênico” com sua relação com o fora (Anti-Édipo, p. 12). Um “esquizofrênico” que prefere passear nas montanhas e não ficar em casa para receber a visita do pastor da igreja – num caso específico, numa outra situação a visita do “bom pastor” pode significar afirmação no sentido que estamos dando.
No caso do passeio em meio a natureza, o agenciamento é estético e não há rupturas com a potência de afirmar o desejo. O homo natura sem hierarquia com a natureza – os dois são uma só coisa.
Existe um filme iraniano (1999) muito sublime - The Color of Paradise, de Majid Majidi – que consegue mostrar com graça e delicadeza o que os autores franceses dizem do “passeio esquizofrênico”.
Trata-se de Mohammad, um menininho desamparado que é cego. Estuda muito longe de casa, num internato para meninos cegos. Sabe que é rejeitado pelo pai, que só consegue vê-lo como uma maldição. Está só no mundo e precisa desenvolver suas “armas” para continuar vivendo à despeito da máquina de desejo sombrio que vai se desenvolvendo no coração de Hashem – o pai.
O pequenino “descobre” na natureza toda a força que necessita para viver – agenciamento com a natureza. Toca o mundo com as pontas dos dedos. Mohammad tem o mundo nas mãos e faz gramática com os sons delicados da natureza - aprendeu matemática com o trinar dos pardais.
Pelas sensações que lhe chegavam ao corpo, traçou  mapas de intensidades dos vales e montes iranianos – apenas pelas sensações, sabia onde localizar cada caminho e cada riacho. Conhecia os aromas, as cores, a localização das árvores, tudo pelas intensidades que lhe afetavam o corpo.
Da suavidade da natureza, o menino cego enxergou um mundo que, para os que têm olhos, não existe.
 Embora Hashem – o pai – vivesse em meio a natureza, não conseguia enxergar, não podia ouvir, e nada sabia das sensações que o filho cego experimentava todo tempo.
A fragilidade de Mohammad era apenas em relação ao seu físico. Ele é uma potência da natureza unido por fluxos de desejo a ela – uma pequena máquina estética. O pai de Mohammad se tornou numa máquina despótica que causava terror. Confuso, entre o desejo de viver e a culpa, não deixava de oscilar entre um devir sombrio e o amor pelo filho.
Em oposição às máquinas fascistas e despóticas, existem as “máquinas de guerra” que sempre se colocam contra “os aparelhos de captura”. As “máquinas de guerra” são agenciamento do desejo com diversos planos éticos, estéticos e políticos. Uma máquina de guerra dessa ordem nunca derrama sangue. É suave e potente ao mesmo tempo.
No belo filme iraniano, Mohammad é a máquina de guerra por excelência. Nos seus passeios na natureza, o menino frágil e cego, se transformava no homem que e ouve o mundo sonoro e óptico que está além das percepções dos homens comuns.
Uma criança, antes de ser capturada pelos aparelhos de Estado – um lar ruim, uma escola ruim, uma família desfuncional ou uma religião triste – é sempre uma pequena máquina de guerra.

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