Amor platônico



Ficou como um dito popular, essa noção de amor platônico - quase um adjetivo que empresta qualidades ao afeto humano chamado amor.
Por que se diz assim, do amor de algumas pessoas, que marcadamente “amam de longe”? Elas estariam longe de quem, ou do quê?
A resposta vai mostrar o quanto nossa subjetividade resulta de um pensamento filosófico, mas sem sabermos.
1.   Não é simplesmente o fato de se encontrar longe do objeto – pessoa que se ama platonicamente.
2.  E não é da pessoa real que se está distante. É muito mais distante disso que se está.
Vamos ver como funciona:
Uma pessoa de nossa cultura, homem ou mulher, se encanta por alguém. Por razões morais e, por suas crenças mais subjetivas, ela não se aproxima do objeto amado imediatamente. Entretanto, é impossível não imaginar como seria maravilhoso ter essa pessoa ao seu lado. Passa horas na cama, no trânsito, no trabalho imaginando como seria bom abraçar, beijar, fazer amor e viver juntos até ficarem velhinhos. Assim, pensando, sonhando, imaginando e “delirando” até, segue nesse secreto sentimento.
Além de “sonhar” quase todo tempo, com o amado, essa pessoa pede a Deus que lhe dê sinais de sua vontade e aprovação para que o encontro fatal possa ocorrer.
Numa bela manhã de maio, num daqueles dias em que o sol aparece tímido entre nuvens, num típico veranico dessa fase do ano, aparece cantando entusiasmado, um raro canário.
Além do mais, diante da varanda do apartamento, no mesmo local onde o canário cantou, se estende uma visão extraordinária da imensidão do mar azul.
Tudo é único, raro e singularmente divino. Esse amante inconfesso vê em tudo isso – e não poderia ser diferente – a mão de Deus. Finalmente, a resposta de que precisava - um outro aprovando seus desejos - os riscos de um erro, ficam assim transferidos para o além mundo. Ela ou ele se sente livre para amar.
Esse é o amor platônico. Ou seja, entre a terra e o céu se escava um abismo intransponível. Toda trajetória desse amor foi construída em cima de ideias e suposições irreais. Inclusive quando Deus aparece para “aprovar”. É tudo projeção do desejo do indivíduo que quer ser amado, mas infelizmente e sem saber, inventa tudo sozinho. Como dizem: viajou sozinho.
O individuo imaginado se afasta do indivíduo real e, somando-se às ideias desenvolvidas ao longo do “delírio”, quase alucinatório, são todas irreais sobre um indivíduo irreal. Ele ou ela se afastou tanto da realidade sem saber, que afastou também qualquer possibilidade de pensar que tudo aquilo não passava de uma ilusão. Já ouviram falar de pessoas que sofrem desilusões amargas? Estavam amargamente iludidas.
A dita pessoa amada nunca existiu – era a projeção do desejo. Tudo que se imaginou sobre essa pessoa “inexistente”, muito menos. Ela só existiu no narcisismo delirante de tudo que se imaginou.
 E, por fim, Deus nunca se meteu nessa história. E o veranico de maio com o canário, o mar azul e tudo mais? Eles   estão ali, ao sabor do vento e do tempo, eles vão e vêm a cada estação, sem finalidade alguma.
Depois, essa pessoa “desiludida” vai a igreja dizer a Deus que está passando por “duras provações na vida” e que viver nesse mundo não vale mesmo a pena. Ou, vai ao analista descobrir que a vida e o mundo não têm nada a ver com seu sofrimento. O que lhe falta é assumir responsabilidades pelos seus atos sonhados. O que pode ou não revelar que viver é uma coisa extraordinariamente rara e bela. O que significa viver com os pés e a cabeça na Terra.
  

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