Bambu
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Estou diante de uma pequena floresta de bambu, uma visão necessariamente bela, instigante. Um emaranhado de varas amarelas rajadas de verde, listas de um verde forte simétricamente riscadas em vertical.
O bambu é vertical, exceto as
folhas e raízes que crescem para os lados. As folhas lembram pés de galinha, e
as raízes mergulham no solo em busca de água e se espalham entrecruzando-se,
umas nas outras, em rizomas de longo alcance.
Uma enorme moita de bambu verde-amarelo,
de varas imponentes subindo em direção ao azul do céu como uma catedral gótica.
No alto, o bambu faz rizoma com
o sol e o céu, com o vento e o oxigênio. Por baixo, invisível, ele rizomatiza com
a umidade e com os minerais da terra. As raízes se dispersam como formigas em
carreirinhas mapeando fluxos d’agua.
Bambus bebem muita água, tomam
litros por dia, bebem o sol em quantidade e respiram fundo com os ventos que os
balançam. Estão sempre juntos como as matilhas de lobos. Assim eles garantem maior
quantidade de sombra e água fresca, somam forças para enfrentar os ventos e as
tempestades.
Deveria se estudar melhor a potência das raízes
do bambu, se elas sustentam em pé essas enormes varas, mesmo ao vento forte, talvez,
quem sabe, um chá de raiz de bambu não sustentaria um pequeno pênis em pé nas
situações em que ele insiste em não subir?
A questão é que, o bambu não parece ter uma
mente ansiosa, e com medo de não funcionar.
As “raízes” que sustentam um pênis
em pé, são de outra ordem. As ramificações cerebrais são “raízes” atravessadas por
fluxos de desejo – libido - que pode produzir ereção, mas também é anti-produção
de si mesmo. Na maioria das vezes, somadas às questões do corpo, são estados
mentais que produzem a "ejaculação precoce", a "impotência", a diminuição do desejo,
etc. - essa questão poderá ser vista depois.
O bambu é puro desejo de subir e
de se manter em pé. Ele envelhece assim, em pé, em meio ao vento e ao sol. Não
há nenhuma moralidade nisso, do tipo humildade do bambu ao se curvar. A humildade
é um conceito ruim para a natureza. O bambu é sóbrio, toda a natureza é dotada de sobriedade.
Existe sim, uma ética, na medida
da natureza. No querer subir cada vez mais alto, ir cada vez mais longe, escavar
sempre em direção ao que aumenta a potência de existir. O bambu, a grama e a
erva daninha, juntos à natureza animal, são de pura ética. Uma ética da natureza
consiste em viver de acordo com as leis da vida, sem “eu”, sem “identidade” e
finalidades.
Bambu é potente, mas não parece
ser prepotente. Ele se dobra até ao chão, quando necessário for, em função de
sua existência. Mas não se quebra fácil. Não é poderoso, mas tem força. O bambu
é vazio de si mesmo. Só existe arrogância e presunção num “Eu” centrado, bambu
é descentrado.
Entre seus gomos, o bambu é oco. Cada gomo
está entre duas formações duras, dois estratos que dão sustentação à vara
inteira. Por isso, ele dificilmente quebra quando dobra. Ele sabe se dobrar, quando o faz, nunca o é para reverenciar ou bajular nada. Bambu é o que é, com seus gomos, entre um nó e outro, espaços entre cheios de intensidade. Cada nó, transmite
sustentação a um meio entre dois.
O segredo deve ser esse, ele está no meio
entre dois, o tempo todo o bambu é meio. Entre riachos, entre áreas abertas e
fechadas, entre plantinhas que crescem aos seus pés – "beijos".

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