(Com) Possibilidades
O
termo acima remete a filosofia de Leibniz (1646 – 1716) – compossibilidade dos
mundos. O que vou fazer não se identifica com Leibniz, ele fez filosofia, eu
estou jogando um jogo de palavras para me divertir com elas. Digamos que não
quero deixar morrer a “criança dentro de mim”. Estou juntando imagens de filmes
– Matrix, Fenda no tempo, Contra o tempo
e Show de Truman. São belos filmes – me divirto com eles.
Os
filmes transitam entre imagem e tempo
de forma extraordinária. Os produtores de filmes são gênios.
Toda
imagem num filme pressupõe um “mundo” que o expectador olha e vê, e outro, que
não se vê, mas que faz parte da imagem atual por que se liga à cena em
desenvolvimento e/ou à imagem virtual
que o diretor quis criar em forma de sensações no expectador.
Os
filmes são sempre feitos de composição de mundos – diversos mundos que coexistem
dentro de um - que é o filme mesmo.
A vida dos indivíduos não é muito diferente
disso.
Pensemos
juntos no fato de haver um mundo de ilusões que nós convivemos acreditando ser
verdadeiro. Essa crença não anula o fato de haver a Realidade do mundo que
escapa aos nossos sentidos. Existe o mundo do qual fazemos parte, mas que não o
enxergamos por conta de nossas
limitações orgânicas. E existem os outros mundos que inventamos em nossos
caminhos. Num deles, seguimos firme ou cambaleantes, os outros, abandonamos
pelo caminho – muitos outros.
O
mundo em que estamos, é o que “escolhemos”
e, por isso, o tornamos o melhor dos mundos.
O
mundo que “escolhemos”, no qual trabalhamos, estudamos, amamos, sofrendo e
sorrindo, segue uma direção. E o mundo real que nos escapa continua em sua
marcha independente de nós estarmos fazendo parte dele. Isso é fato.
Existe
outra situação, não menos complexa: dois caminhos que se bifurcam numa tomada
de decisão. Abre-se uma encruzilhada no exato momento em que um indivíduo
decide ir a algum lugar. Abre-se um mundo no caminho em que está caminhado. Mas
o mundo em que não foi “caminhar” continuou sem ele. É assim mesmo.
Existe
o mundo em que o indivíduo atua no momento presente e o mundo onde ele não está
– só podemos estar no presente. O indivíduo pode não estar mais lá, mas tudo
continua com a ausência dele e sem excluir o fato de ter estado. A realidade de
ter pertencido àquela realidade temporal jamais poderá ser anulada – entrou na
eternidade.
As
condições de possibilidades existem no mundo onde o indivíduo está e continuam
existindo sem que ele lá esteja – numa situação incluindo-o, e na outra, com
possibilidades diferentes por causa da ausência daquele.
A
presença e a ausência são condições de diferentes sínteses. Costumamos perceber
algumas influências da presença de determinadas pessoas na vida de alguns, mas
nunca saberemos nada a respeito das influências da ausência de alguém na vida
dos mesmos. Mas elas existem.
Até
agora está relativamente simples. Vê-se isso em Matrix e no Show de Truman.
Vamos
“mergulhar” um pouco mais na profundidade.
No
filme Contra o tempo, existe a cena
da explosão do trem que se repete várias vezes. Ou seja, o trem explodiu e
todos os passageiros morreram muitas vezes. A cidade continua a sua vida sem as
pessoas que morreram. É impossível imaginar a quantidade de mundos nessa
relação. São muitas pessoas que se relacionavam em muitos níveis afetivos.
Todas as pessoas próximas ou de relacionamentos de qualquer ordem terão que
conviver com a ausência dos que morreram – são múltiplas realidades. A cidade
terá que continuar sem as pessoas que morreram no trem que explode. Nisso já há
uma complexidade impensável. Existe o mundo que se perde na explosão e o mundo
que continua apesar de ter havido a explosão. Mas esse mundo explodido não
termina, ele continua ecoando ao lado do que não explodiu.
Para
complicar mais ainda, o autor do filme decide finalmente não explodir o trem
que explodiu tantas vezes. Ele cria à revelia do destino, um mundo alternativo
ao mundo em que houve o acidente. Na verdade, se abre um mundo de
possibilidades onde o trem que explodiu, não explode, ao mesmo tempo.
Dois
mundos se criaram na mente do expectador: um mundo do acidente do trem onde
todos morreram – esse mundo segue como acontecimento em sua trajetória
irreversível. O fato de ter havido a explosão não elimina o mundo onde as
coisas se dissiparam – ele permanece suspenso em sua dissipação.
Mas
o trem não explodiu também. Nesse mundo, sem a explosão, todos seguem em seus
fluxos de vida sem qualquer lembrança de uma explosão.
E
o herói do filme que, por ter voltado tantas vezes no trem que explodia, acabou
por se apaixonar por uma bela passageira que morria sucessivas vezes. A
contingência que muda os destinos é justamente esse encontro inesperado. As
condições de possibilidades ficam em estado virtual até a sua atualização na
forma em que se deu. O trem não pode explodir para que os amantes apaixonados
possam amar.
No
Fenda no tempo é assim. O passado
existe se desfazendo no tempo - segue seu caminho de dissipação. O passado
deixa de existir em relação ao indivíduo que, limitado por sua corporeidade,
não pode coexistir em dois lugares e em dois tempos.
Outra
subdivisão se abre no filme, os passageiros – não se trata mais do trem – e que
estavam acordados quando o avião entra na “fenda do tempo”, desaparecem do
avião em pleno voo. Mas, os que estavam dormindo permanecem no avião.
Não
é que os passageiros desaparecidos tenham deixado de existir, apenas não estão
ali no mundo dos que continuaram no avião. Ainda assim, aquele mundo persiste
na tela, entra no passado que se dissipa estando no presente ameaçado de dissipação
– todo presente escoa em passado. O passado é o presente que passou. E o
futuro, que não está no tema, é o presente que ainda não chegou. Os
expectadores sabem que o tempo futuro está fora da cena do outro lado da “fenda
que permanece aberta”.
Vamos
ficar por aqui. A ideia é complexa. Fica só essa lembrança para incomodar e nos
tirar do sonho pequeno – não existe só o mundo de nossas vaidades.
Existem
infinitos mundos se abrindo a cada instante em que alguém decide alguma coisa,
seja a menor das decisões.

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