Solidão e Liberdade IV

 

Somos esse ser-no-mundo, lançados na existência, mas não podemos viver nossa solidão sozinhos. A solidão, diferentemente da solitude, pode ser insuportável. A solidão é o estado da existência — nós existimos com nossos temores e nossas dores, podemos falar deles, mas, ao final de toda fala, seguimos sentindo ou temendo sem poder delegar a outro. Carregamos nossas alegrias e nossos fardos, os que são da nossa parcela da existência. Nessa parcela, incluem-se o envelhecimento — tempo ao qual, segundo Freud, a natureza reservou as maiores dores — e aquilo que há de mais inevitável e comum a todos: nosso término. As sensações e os afetos da morte que carregamos recalcados nos fazem sentir esse ar de solidão e desamparo intransferível. Chamamos a isso solidão, mas não se trata do fato de se ver socialmente sozinho; essa é uma condição remediável.

 Diferente da solidão, a solitude está associada a sentimentos positivos de alegria por estar sozinho. Como dizem Deleuze e Guattari, em O que é a filosofia?: “De repente já não éramos dois, éramos uma multidão”. A solitude é estar acompanhado de multidões ausentes, e dois já representam muito, pois cada um traz consigo muitas ideias. No belo filme O náufrago (2000), Chuck Noland (papel protagonizado por Tom Hanks)[1] é o inspetor da Federal Express (FedEx), na narrativa de um homem que sobrevive a um acidente de avião e permanece sozinho em uma ilha. O desespero de se ver em completo estado de isolamento e reclusão o força a criar um companheiro, para que possa sentir a presença de alguém. O personagem faz da bola Wilson o amigo imaginário, com o qual trava diálogo —  é com Wilson, inclusive, que ele encontra coragem para extrair um dente que, no isolamento da ilha, está lhe causando uma infecção. Somos seres sociais e não suportamos isolamento por tempo indefinido.

 

Esfreguei os olhos com força. Olhei atentamente. E vi um menino fora do comum, que me fitava com grande seriedade.[2]

Por Clécio Branco – Psicólogo e Filósofo

Do livro: Isso não é um chapéu: reflexões acerca do Pequeno Príncipe

Editora: LC-Produções – Curitiba - Brasil


[1]Náufrago — Filme 2000. AdoroCinema. Acesso em: 25 dez. 2023.

[2]SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 9.

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