Reversão ...III


Como a definição de homem partia do julgamento moral dos homens de pele branca, eles, valorando de forma narcísica e, até certo ponto, “inconscientemente, como mais próximas da perfeição divina as características que eram as suas, de modo que, quanto mais alguém fosse diferente ou distanciado deles, mais seria considerado distante da perfeição divina”.[1]

A definição do homem racional deixou de lado a realidade esquizofrênica humana (O Anti-Édipo) ou, no dizer de Edgar Morin, o homem é sapiens, mas também é sapiens demens. Nós somos racionais porque sabemos adequar alguns meios a alguns fins. O homem é do gênero homo e tem como qualidade a capacidade de representar as coisas, adequá-las e ajustá-las em formas matemáticas.

É o que Morin vai chamar de um “primeiro entrelaçamento do pensamento complexo”, ou seja, o homem é entrelaçado no fato de ser homo sapiens, e, ao mesmo tempo, sapiens demens.[2] Pensando em termos psicanalíticos, dizemos que o homem é capaz de construir um mundo simbólico ao lado do imaginário, retira dele com o respaldo da razão a impressão de que habita um mundo superior, ou seja, uma crença que não é muito diferente da crença religiosa que lhe dá certezas de habitar um mundo à parte da natureza selvagem. Isso inclui a crença de que há, nessa divisão, sanidade de um lado e loucura de outro, natureza e sociedade humana, homem e natureza.

Creio que o real que irrompe seja a eterna ferida narcísica do homem. A ilusão narcísica é a de se pensar que se vive no simbólico, e não no real. E a ferida narcísica é o desvelamento do fato de estarmos imbuídos de um estatuto especial de nosso sistema sensório-motor adaptado às circunstâncias humanas (demasiadamente), o que nos distancia da natureza, mas, quando ela se mostra no real, nosso sistema perceptivo a interpreta como destruição. Mas tudo não passa da destruição “de sua ilusão, de seu castelo de cartas e significantes”.[3]

De onde vem a sociedade senão do homem? O homem não é esse ser racional que caiu das estrelas ou que, tendo sido expulso do paraíso, encontra uma natureza inferior a ele – selvagem, perigosa, constantemente ameaçadora – com a qual ele tenha de se relacionar em oposição. O antropologismo definiu o homem por oposição ao animal; a cultura por oposição à natureza; o reino humano como síntese da ordem e de liberdade, a sociedade humana se opõe tanto aos distúrbios naturais – por isso, as referências à “lei da selva” e aos impulsos descontrolados – quanto aos mecanismos cegos do instinto; a sociedade humana civilizada é o modelo de maravilha de organização, define-se por oposição às multidões, às hordas e às matilhas.[4]

O homem é esse animal entrelaçado, cria e vive na cultura e por ela é recriado. Como poderia ele, ao mesmo tempo, ser antinatural e natural? Como explicá-lo com base numa teoria que só se refere a seu aspecto racional (antinatural)?

Precisamos de outro sistema de explicação para responder a essas questões. Vale relembrar o que o pai da psicanálise já dissera quanto ao caráter provisório de seus conceitos metapsicológicos.[5] Freud tocou o plano filosófico: esse é o momento crucial da virada. É necessário criticar a psicanálise quando ela ficou presa demais aos ideais iluministas da razão. Os planos que definem os termos da psicanálise não são os mesmos que definem a filosofia.

Segundo Deleuze, “a psicanálise (...) relançou as pretensões da razão”.[6] Deleuze dá essa declaração no momento em que trabalha a literatura americana, e a literatura não se preocupou com a psicanálise. Deleuze viu que a literatura, sobretudo a menor, tem mais a dizer dessa passagem entre planos do que a psicanálise. Há uma potência do pensamento filosófico por trás dos conceitos da psicanálise, mas é preciso arrancá-los da transcendência das formas (organismos) e lançá-los no plano de imanência filosófico. Como cita Martins, “percebemos que, na realidade, a filosofia, tida pela psicanálise como conservadora,[7] nos ajudava a pensar o novo; e a psicanálise, tida como revolucionária, insistia aqui e ali em conservar-se imutável e tendia a transformar suas conquistas numa ortodoxia”.[8]

Abre-se com Deleuze (Diferença e repetição) e, mais adiante, com Guattari (Capitalismo e esquizofrenia) uma zona de vizinhança, a “expressão de um rosto” distanciado do mecanicismo e das dualidades. Os termos não podem ser os mesmos (pulsão disso ou daquilo); a coisa focada é dotada de velocidade infinita, “é um acontecimento puro, uma hecceidade, uma entidade (...)”,[9] cujo conceito é tomado como seu rosto, ou melhor, o rosto é o conceito. Como os conceitos, são sempre absolutos e relativos: “relativo a seus próprios componentes, aos outros conceitos, ao plano que se delimita, aos problemas que se supõem deva resolver, mas absoluto pela condensação que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condições que impõe ao problema”.[10]

É o que Deleuze/Guattari fazem com os conceitos da psicanálise: “remanejam os conceitos”, “mudam” por conta de mil detalhes que se avolumam. É preciso fazer justiça a Freud nesse sentido, confessaram explicitamente. Assim como “Nietzsche, corrigia ele mesmo suas ideias, para constituir novas, sem confessá-lo explicitamente; em seus estados de alteração, esquecia as conclusões às quais havia chegado anteriormente”.[11]



[1]  BIRMAN apud MARTINS, A., op. cit., p. 337.
[2]  Ver do autor, Le paradigme perdu: la nature humaine. Paris: Editions du Seuil, 1973. (Edição brasileira O enigma do homem.) Sobre o tema, ver principalmente do mesmo autor, Pensamento complexo.
[3]  MARTINS, A., op. cit., pp. 334-335.
[4] Deleuze/Guattari mostram que o terror do socius em relação às multidões, às hordas e às matilhas é justamente por trazerem junto o elemento anômalo, o outsider. É que “as matilhas, as multiplicidades não param, portanto, de se transformar umas nas outras, de passar umas pelas outras. Os lobisomens, uma vez mortos,  transformam-se em vampiros”. (DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mil Platôs. São Paulo: Editora 34, 2005, v. 4, p. 33.
[5] FREUD, S. Um estudo autobiográfico. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996, v. XX, p. 62. [1925, 1924]
[6]  DELEUZE, G., Critique et clinique., p. 104.
[7]  Freud foi um pesquisador das “filosofias racionalistas, universalistas e idealistas, como a de Platão, Aristóteles, Kant, Schopenhauer, Hegel (...) Autores que submetem o devir à representação, ou à identidade, ou ao sujeito, ou ao espírito (...) Autores, contudo, familiares à psicanálise”. Ver MARTINS, op. cit., p. 361.
[8]  MARTINS, A., op. cit., p. 361.
[9]  DELEUZE, G./GUATTARI, F. Qu’est-ce La Philosophie? Paris: Les Éditions de Minuite, 1991, p. 26.
[10] Idem, pp. 26-27.
[11] Idem, p. 27.

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