Corpo sem órgãos III


Nossa questão não é precisamente a respeito do corpo, mas do efeito e do que se processa no encontro entre os corpos. É sobre os encontros solitários que nos falam Deleuze/Guattari (Mil Platôs, 1996), de uma solidão povoada: “Cada um de nós era vários, já era muita gente”.[1]
Com a tese do corpo sem órgãos, “Artaud, o artesão do corpo sem órgãos”,[2] em programa radiofônico, iniciou o combate ao “juízo de Deus” e contra os órgãos. Deleuze/Guattari extraem dessa noção as partículas diabólicas e conecta às complexas máquinas da pragmática do desejo, o que vem a ser a micropolítica, a rizomática e outros nomes para a mesma coisa que é a esquizoanálise.[3]
O conceito de corpo sem órgãos aparece pela primeira vez em Lógica do sentido, em dois casos clínicos: “perversidade de Alice” e “esquizofrenia de Artaud”. Ambos os casos mostram o quanto a organização de superfície é frágil. Apenas uma lisa membrana separa os dois lados, de uma organização de superfície, do lado de cá, e de “um monstro ameaçador”, do lado do infinito:

um não senso informe e sem fundo (...). A ameaça é primeiramente imperceptível; mas bastam alguns passos para que nos apercebermos de uma falha aumentada e que toda organização de superfície já desapareceu, jogada em uma ordem primária terrível.[4]

Das duas entidades clínicas que mergulham nessa relação, superfície/profundidade sem fundo, Deleuze pôde deduzir a categoria de corpo sem órgãos. A psicanálise desprezou essa realidade pré-subjetiva no momento em que Freud abandonou a realidade intensiva do Isso na primeira tópica.
A psicanálise necessita do sentido da segunda tópica, e só pode trabalhar com os fantasmas que retornam da repressão. O não senso do Isso devorou o sentido da organização do aparelho psíquico e do psiquismo centrado na família. A literatura nos dá esse exemplo, em que as histórias infantis, a história do mundo, a poesia e a loucura se misturam. A psicanálise teria de reduzir tudo isso a uma “trindade”, girando em torno de uma figura central, o Édipo familiar: subtrair da história um Hitler ou um Mussolini e transformar a esquizofrenia numa neurose obsessiva.
Fazer da perversidade da menina, uma perversão sadomasoquista. Os dois casos não se interpretam. É preciso ver “como isso funciona”, quais são as máquinas que se ligam, quais são os agenciamentos que se fazem nesse caso. Não é uma questão de desejo? Seria mais fácil excluir os dois casos do divã, os dois deslizam para “outro mundo” de “outra linguagem” sem papai-mamãe. “Com espanto”, diz Deleuze, “reconhecemos sem esforço: é a linguagem da esquizofrenia”.[5]
A obra de Carrol é um efeito de superfície sobre um espelho. Para Artaud, toda a superfície se afunda, ele vê a menina ser “afetada, ao abrigo de todos os problemas de fundo?”.[6] Não há mais superfície organizada, ela sucumbiu, “a primeira evidência esquizofrênica é que a superfície se arrebentou”.[7] Freud foi quem primeiro percebeu isso em O inconsciente (1915), também está no Caso Schreber, o que Deleuze chama de “primeiro aspecto do corpo esquizofrênico é uma espécie de corpo-coador”.[8] Já dissemos que que se trata de uma questão de desejo, pois Deleuze/Guattari estabelecem essa relação: “(...) a esquizofrenia é o universo das máquinas desejantes, produtoras e reprodutoras, a universal produção primária como ‘realidade essencial do homem e da natureza’”.[9]
Nisso, consiste o combate, as máquinas desejantes, com suas sínteses, lutam para organizar um corpo, mas, dentro de sua produção, “o corpo sofre por estar organizado assim, por ter uma organização, ou organização alguma”.[10] O presidente Schreber tem milhares de orifícios na pele (corpo-coador), é uma pausa no meio da produção desejante. “Nem boca. Nem língua. Nem dentes. Nem laringe. Nem esôfago. Nem estômago. Nem ventre. Nem ânus.”[11]


[1] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mille Plateaux, p. 9.
[2] LINS, D. Antonin ArtaudO artesão do corpo sem órgãos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
[3] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mille Plateaux,  p. 34; L’Anti-Oedipe, 1972, pp. 325-458.
[4] DELEUZE, G. Logique du sens. Paris: Les Éditions de Minuit, 1969, p. 101.
[5] DELEUZE, G., Logique du sens,  p. 102.
[6] Idem, p. 105.
[7]  Idem, ibidem.
[8]  Idem, ibidem.
[9] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., L’Anti-Oedipe,  pp. 10-11.
[10] Idem, p. 13.
[11] Idem, ibidem.

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