A REVERSÃO DA PSICANÁLISE
Principalmente após a publicação de O Anti-Édipo, no momento de
ruptura com as categorias de Freud, Deleuze/Guattari projetam-se sobre a
realidade social e política e constroem um novo ponto de vista: em verdade, um
programa esquizoanalítico.
Por intermédio de interrogações sobre a ligação entre as representações
do inconsciente freudiano e os afectos, avaliam a significação que a
(re)descoberta freudiana pode ter para a produção da realidade social.
Tratou-se de analisar a pulsão de morte enquanto instinto de morte, não fazendo
parte de um aparelho psíquico, mas como uma força que se encontra para além do
aparelho que organiza as forças em princípio de prazer.
Além disso, quanto ao Édipo da psicanálise, Deleuze o constitui como a “Metafísica”
da psicanálise, enquanto o resultado do uso ilegítimo daquelas que seriam,
segundo O Anti-Édipo, as três sínteses do inconsciente: a síntese
conectiva de produção, a síntese disjuntiva de registro e a síntese conjuntiva
de consumo.
Para compor uma micropolítica ou uma esquizoanálise, foi necessário
erigir uma descrição do inconsciente sem a inscrição à transcendência de Édipo
ou de seu correspondente significante. O corpo sem órgãos se encontra integrante
do instinto de morte, ou ele mesmo.
Nesse aspecto, “O Anti-Édipo representa uma virada: a ideia de
corpo sem órgãos ali é retrabalhada em função de um novo material clínico” que
vai além da análise individual e “do qual é extraído o conceito de ‘máquinas
desejantes’, adquirindo uma complexidade que permite a Deleuze, depois do tema
da univocidade e da distribuição nômade, enfrentar pela segunda vez o problema
maior de seu pensamento (...)”.[1]
A tarefa da filosofia diante da teoria das pulsões deve ser a de
desalojá-la do psiquismo. O que, em seu devir-filosófico, Freud já vinha
tentando, em Para além do princípio de
prazer. Consequentemente, essa tarefa deve livrar a teoria das pulsões de
seu dualismo. Não haverá mais uma pulsão “que se esforçaria para levar o vivo
de volta ao inorgânico, e outra que reagiria a esta, buscando agregar a matéria
viva em unidades cada vez maiores e, assim, manter a vida”.[2]
No lugar desse dualismo, Deleuze/Guattari introduzem as máquinas
desejantes e o corpo sem órgãos, as duas coisas fazendo parte de um mesmo modo
de produção. O dualismo, que compreende um conflito na unidade orgânica do
aparelho psíquico, só existe a partir do choque do recalque secundário. O
conceito de pulsão de morte atinge a finalidade de formalizar uma teoria geral
de longo alcance.
Na compulsão à repetição, enxerga-se a tendência fundamental de uma
força agressiva que, primariamente, não se destina a objeto algum, mas a outrem,
que é de uma ordem transcendental, nos termos de Deleuze. O organismo se
encontra no meio dessa força cuja tendência primária é a redução completa das
tensões. Essa é a passagem de inspiração filosófica presente na obra de Freud
que favorece uma virada fundamental.[3]
Ora, a clínica se
ocupa dos conflitos psíquicos, de como o inconsciente psicanalítico age em nós:
por deslocamentos, condensações, por projeção e identificação. Dessa forma, o
homem se contenta com ganhos secundários e satisfações substitutivas: recalca o
que traz desprazer, mas, como o recalcado continua a interferir nas ações em
estados afetivos, não se pode dizer que haja aqui uma matéria essencialmente
filosófica.
Ps. continua
[1] ZOURABICHVILI, F. Le Vocabulaire de Deleuze. Tradução
de André Telles. Paris: Ellipses, 2003, p. 15.
[2] MARTINS, A. Pulsão
de morte? Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p. 11.
[3] Os textos em que a pulsão de morte é tratada em Freud são
os seguintes, segundo ordem cronológica: Além do princípio de prazer
(1920), A teoria da libido (1922). O Eu e o isso (1923), O
problema do masoquismo (1924), As resistências à psicanálise (1924),
Um estudo autobiográfico (1924), Psicanálise (1925), O futuro
de uma ilusão (1927), Mal-estar na cultura (1930), Angústia e
vida pulsional (1932), Por que a guerra? (1932), A análise
terminável e interminável (1937) e Esboço de psicanálise (1938).
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