Corpo sem órgãos IV
A esquizofrenia é a vitória do corpo sem órgãos sobre as máquinas
desejantes, vitória de Thanatus sobre Eros, caminho natural de
todo organismo vivo. Mas é preciso que os organismos encontrem e vivam a
própria morte: o processo de produção das máquinas desejantes tem de chegar a
seu fim. A parada do processo em grau zero de tensão, embora seja
universalmente desejada, não deve ser a meta. Esquizofrênicos, até certo ponto;
autômatos, até certo ponto. Até o ponto em que os processos não cessem de
trabalhar, em que uma máquina se ligue a outra, em que se faça rizoma na
relação alopoiética/autopoiética.
Ou seja, trata-se de um sistema aberto para receber todos os afectos,
fazer política com as multiplicidades que desfazem as formas de superfície. Os
esquizofrênicos e os autômatos exilados perdem a aplicabilidade políticas
desses devires-moleculares que chegam em multidões na superfície do corpo. “Os
autômatos se imobilizam e deixam subir a massa não organizada que eles
articulam. O corpo pleno sem órgãos é o improdutivo, o estéril, o inengendrado,
o inconsumível.”[1]
A pulsão de vida tem de estar a serviço da pulsão de morte, mas, nesse sentido,
em que as forças tendem a impor uma nova ordem sempre por vir. É um paradoxo de
sentido, “porque o desejo deseja também isso, a morte, porque o corpo pleno da
morte é seu motor imóvel, mas também deseja a vida, porque os órgãos da vida
são a working machine”.[2]
Nesse ponto, atingimos o que entendemos como uma micropolítica, uma
política do desejo. A primeira tarefa de um indivíduo (sujeito, em certo
sentido), no momento das sínteses passivas do inconsciente, é conviver com esse
instante em que o real é diretamente produzido pelas máquinas desejantes, as
primeiras peças trabalhadoras.
O que Deleuze viu nos objetos parciais de Mélanie Klein[3]
é isto: as primeiras peças trabalhadoras das máquinas desejantes. Mas é preciso
ir adiante da interpretação psicanalítica. Deleuze, em Diferença e repetição
(1968) e Lógica do sentido (1969), ainda se encontra atrelado à tese de
Melanie Klein. Até então, os objetos parciais ainda não haviam sido exorcizados
de sua tara original por Édipo. Furtos e Roussilon afirmam que a posição de
Deleuze até ali “segue de modo mais ou menos fiel a concepção”[4]
da autora. Nesse momento, quando a mãe já não é mais um objeto fragmentado, mas
a criança já a perdeu completamente, transforma-se em objeto fantasmático, o
que cria o desejo e segue na posição clássica.
O Anti-Édipo (1972) recusa essa posição e introduz três críticas
que serão longamente desenvolvidas: a crítica radical ao desejo dependente da
falta, da castração e da lei; crítica à representação que não produz nada e,
não sendo produção, o inconsciente apenas representa fantasmas. Os autores
propõem a substituição desse inconsciente que fabrica fantasmas pelo
inconsciente que produz; trata-se de uma crítica ao complexo de Édipo, que
opera a repressão das máquinas desejantes.
O desenvolvimento das críticas reúne desejo e corpo sem órgãos. Essa
tarefa não é simples, pois, por um lado, os autores articulam os fluxos e
cortes de fluxos da produção desejante ao que eles chamam de universal produção
primária. Nessa produção, assinale-se que estão submersos homem e natureza. Tal
produtividade se caracteriza por produzir sempre o produzir pelo injetar o
produzir no produto, pela produção de produção. Por outro lado, o corpo sem
órgãos é o improdutivo, o estéril, o inengendrado, o inconsumível,[5]
mas é considerado “a profundidade, onde a organização de superfície” garante o
sentido da organização sempre em estado de diferença.
No choque das máquinas desejantes com o corpo sem órgãos, há sempre um
efeito caosmótico que obriga as máquinas ao reordenamento da superfície
estriada. Desse encontro, resulta não apenas o reordenamento, mas também, por
ser forçada, a natureza apresenta o novo. O conceito de máquinas desejantes é
subtraído desse novo material clínico complexo – corpo sem órgãos que repele as
máquinas que se aferram a ele.
De acordo com Zourabichivilli, esse é o segundo momento que Deleuze
enfrenta como crucial de seu pensamento: “Depois do tema da univocidade e da
distribuição nômade”, ele tem de “articular as duas dinâmicas inversas e não
obstante complementares da existência – de um lado, a atualização de formas e,
de outro, a involução que destina o mundo a redistribuições incessantes?”.[6]
Estamos impregnados demais do sentido psicanalítico de “morte” que o
senso comum transmite ao termo “pulsão de morte”. Que morte? Lendo
Deleuze/Guattari já no contexto de corpo sem órgão, o que aparece nesse
interstício, tendo, de um lado, as máquinas desejantes (formas) e, de outro, um
plano de matéria preformada, um movimento constante de metamorfose que opera
uma abertura para um futuro que nunca acaba de chegar, devir portanto. Ou seja,
o sentido brota do jogo de forças que nunca estão sob o controle dos seres.
Esse complexo sistema de singularizarão (si-mesmo) introduz nos corpos tamanha
complexidade que decide por si mesmo a diferenciação ininterrupta. Um
indefinido decide o que será antes da manifestação consciente; não é o sujeito
em questão que tem o poder de decidir.
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