O livro do juízo





Basta ler Apocalipse para perceber o quanto os estratos de diversos tempos históricos podem agenciar-se e, ao reativar antigos estratos, criar-se outro ainda mais potente.

Curiosamente, o derradeiro livro do Novo Testamento é o livro dos olhos do paganismo. João não tem um olho visionário próprio, pois as visões que ele tem a partir de Patmos são emprestadas de figuras de seus antigos rivais religiosos (pagãos).

O Apocalipse subtrai ou une os efeitos do estrato, pagão, judeu e cristão. Tanta preocupação com os deuses pagãos não impede que eles se infiltrem nas visões do Apocalipse: os dragões, a besta que sai do mar e da terra, as mulheres (a prostituta e a noiva imaculada) adornadas, são todas figuras pagãs. “Quando os profetas precisavam de visões, eram obrigados a ter visões caldeias ou assírias. Tomavam de empréstimo outros deuses para perceber o próprio Deus invisível” (DELEUZE, Critique et clinique, p. 52).

Há uma grande semelhança entre a Jezabel que enfrenta o profeta Elias[1] no Monte Carmelo e a grande prostituta que representa Babilônia no Apocalipse. Deleuze vê, através de Lawrence, o efeito do espetáculo no célebre Capítulo XII de Apocalipse: há uma sedimentação pagã por todos os lados. “O mito pagão de um nascimento divino, com a Mãe astral e o grande dragão vermelho, vem preencher o vazio do nascimento de Cristo.” (Id., p. 57)

O Deus judeu do Antigo Testamento era visto por seus adoradores com os olhos dos vizinhos e inimigos declarados: caldeus, assírios, babilônios, filisteus, amorreus etc. É o caso de Ezequiel na visão das rodas: “Ezequiel tem necessidade das rodas furadas de Anaximandro”




 .

[1]Desafiou os profetas de Baal no Monte Carmelo” (I Rs 18.22-45); “Ameaçado de morte, fugiu com medo de Jezabel e desejou a morte” (I Rs 19.4).

Ps. continua

 .

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Reversão... II

O cristianismo seria grego?

As sínteses II