Corpo sem órgãos V


O sentimento manifesto no fenômeno de sexualidade é atrasado em relação ao afecto que o constitui. Estamos diante de uma situação molecular que propicia as formações molares. As linhas de resistência política não alcançam esse limite micropolítico. A política de grupos trata apenas do combate aos aparelhos de repressão do que já existe no mundo das formas. Quanto a esse aspecto, lembra Foucault, “foi a vida, muito mais do que o direito, que se tornou objeto de lutas políticas, mesmo que estas se formulem através de afirmação de direito. O direito à vida, ao corpo, à saúde, à felicidade, à satisfação das necessidades”.[1]
 Em planos de uma ontologia política, a tarefa é evitar afastar os devires sensíveis dos encontros, das máquinas desejantes-corpo sem órgãos. Essa relevância ética da política do corpo sem órgãos deve incluir a vontade de morrer como parte do sistema complexo que faz com que as máquinas retornem sempre a um elemento incansável que o repele insistentemente.
Há sucessivas mortes nesse retorno,[2] além da morte por cansaço, que seria a morte final de todos os organismos vivos. Só sobrevive o fluxo germinal intensivo, para onde todo ser vivo deseja retornar. Há essas duas políticas em questão: a primeira, desse eterno retorno silencioso (micropolítica de operações moleculares); a segunda, para impedir a primeira. O fluxo germinal provém do gérmen originário do corpo sem órgãos, ele flui “no sentido da diferenciação somática, em função do código (genético) naturalmente inscrito sobre o corpo sem órgãos.
Essa diferenciação é regida pelo princípio de neguentropia, e dá origem às pessoas molares.[3] Ao mesmo tempo, há o movimento inverso, “isto é, do soma para o gérmen”, que vai no sentido da “des-diferenciação regida pelo (regime) de entropia, que redescobre as máquinas desejantes em seu nível molecular”.[4]
Esse modo de funcionamento garante a expansão da vida, que é seu sentido essencial, crescer, subir quer a vida, diria Nietzsche nesse caso. Uma máquina abstrata estaria “de plantão” para impedir esse retorno do fluxo germinal intensivo ao gérmen do corpo sem órgãos.
A psicanálise baseada no mito da horda selvagem inventou o incesto infantil, mas os psicanalistas poderão dizer que é tudo uma questão de “desejo de retorno ao seio materno”. Os moralismos que aparecem por aqui têm como fundamento-causa tomar o efeito como causa. Essa inversão estaria na base dos preconceitos quanto à questão do desejo do masoquista, entre outros.
A pulsão de morte enquanto fluxo germinal intensivo que deseja o retorno ao gérmen originário não pode ser impedida por uma teoria moral. É da natureza do fluxo retornar sempre. Considerou-se (psicanálise) a pulsão de morte o pano de fundo de todas as investidas contra a vida, ou seja, a morte como efeito de uma causa comum, que seria a pulsão de morte.
Quando uma pessoa busca a morte, estaria guiada pela pulsão de morte? A melancolia, o masoquismo (quando visto sob o equivoco da psicanálise), o drogadito, a anorexia, o alcoólatra etc., estariam todos movidos pela pulsão de morte? Há, nesse “desfile de corpos lúgrubes”, um desejo de morte prematura? A guerra, a destrutividade, a violência estariam todos esses casos inseridos na mesma questão? Todo vandalismo é efeito dessa causa, pulsão de morte? Creio que seria uma aproximação delicada demais com o senso comum, o que simplificaria tanto ao ponto de não explicar nada e impedir a compreensão do que acontece.
O retorno ao fluxo germinal intensivo ao corpo sem órgãos não é a morte atômica, não se trata de uma morte reativa. Essa pode acontecer em situações vívidas de vicissitudes, que impedem os indivíduos de viver a própria vida ou a própria morte. Em essência, é o próprio retorno ao gérmen originário que se encontra comprometido. Então o desejo de morrer com as próprias mãos vem, por fim, a esse estado de coisas que tornaram a vida impossível.
Seguindo o comentário no Foucault de Deleuze, as experimentações são formas de resistência que se ligam à vida como “portadora de singularidades, ‘plenitude do possível’, que não é o homem como forma de eternidade”, essa vida que “tem de passar pelas mortes que precedem o limite da própria morte”. Essa vida, ao passar pelo fatal “cortejo de um ‘morrer-se”, não deixa, entretanto, de “tomar seus lugares”, de suscitar acontecimentos”.[5]


[1]  FOUCAULT, M. Histoire de la sexualité, I. La volunté de savoir. Paris: Gallimard, 1976, p. 191.
[2] Podemos evocar aqui a voz do Corvo, de Edgar Allan Poe: o Corvo canta incansavelmente, “Never more”, “never more”, “never more...”. Em cada retorno das máquinas desejantes ao corpo sem órgãos, nunca mais as coisas são as mesmas; tudo que retorna não retorna o mesmo, tudo que chega não chega para permanecer.
[3]  FURTOS e ROUSSILON, op. cit., p. 45.
[4] Idem, pp. 45-46.
[5] DELEUZE, G., Foucault,  pp. 97-102.

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