Figura cristã no santuário II
Segundo
São Pedro, com Cristo, “vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação
santa, o povo adquirido”.[1] As correlações do cordeiro morto com Cristo, o
cordeiro de Deus, são muito precisas e muito bem montadas. A passagem do
santuário terrestre para o celestial resultou no projeto político mais
bem-sucedido no Ocidente cristão.
O
cristianismo de São Paulo e de João é a dissidência judaica de maior
repercussão na história. O cristianismo apropriou-se dos utensílios de culto
nacional do judaísmo e elevou-os ao simbolismo máximo. O efeito restrito a um
povo passou a valer para a humanidade inteira. O efeito apocalíptico fez do
cristianismo um juízo universal. Não foi o Cristo da pequena aldeia de
pescadores. O verdadeiro cristianismo que triunfou se encontra em São Paulo e
no Apocalipse de João.
Em
João de Patmos, não é mais só o povo judeu que entra em juízo, mas também a
humanidade, que se encontra permanentemente sob investigação judicial. Mas, ao
mesmo tempo, os eleitos de Deus, os santos, receberam a faculdade judicativa.
Todos receberam títulos de poder, uma nova raça de sacerdotes. Como bem diz
Deleuze, “será preciso que o sacerdote cristão substitua o sacerdote judeu, mas
com o risco de que ambos se voltem contra o Cristo”.[2]
É
curioso como homens simples, pescadores iletrados, camponeses e pastores de
ovelhas podem transformar-se em pessoas tão cínicas. É a vontade de julgar que,
somada à vontade de nada de vontade, fez uma consciência se encher de
convicções. O iletrado pregador da praça pública grita palavras de condenação.
Os veículos de comunicação, ocupados diariamente pelos pregadores, condenam a
audiência. “Quero julgar, é preciso que eu julgue! Vontade de destruir, vontade
de introduzir-se em cada canto, vontade de ser para sempre a última
palavra”.[3] Narcisismo da alma coletivo, uma política de vingança que se
oculta na forma de amor cristão. É amor na mesma medida que qualquer amor
narcísico, ou seja, você precisa esquecer o que é, e deixar tudo o que é seu, e
tornar-se um idêntico a mim mesmo.
Para
inventar uma neurose coletiva, é preciso prometer a exaltação dos fracos e,
como eles são a maioria, formar-se-á um terrível exército. Para isso, é preciso
fazer uma grande torção na figura do imaculado. “Farão dele o herói da alma
coletiva e o obrigarão a devolver à alma coletiva aquilo que ele jamais quis
dar. Ou melhor, o cristianismo vai dar-lhe aquilo que ele sempre odiou, um Eu
coletivo, uma alma coletiva”.[4]
O
Jesus amante dos pobres e dos injustiçados se transforma em seu vingador em
escala universal. “Ele, que não julgava e não queria julgar, será convertido
numa peça essencial do sistema de juízo. Pois a vingança dos fracos” (só aos
fracos é dado o poder de julgar, espécie de recompensa por uma existência
inteira de dor e sofrimentos), “ou o novo poder, é mais precisa quando o
julgar, e a abominável faculdade judicativa torna-se a faculdade mestra da
alma”. (Sobre a questão menor de uma filosofia cristã: sim, há uma filosofia
cristã, não tanto em função de crença, mas a partir do momento em que o julgar
é considerado uma faculdade autônoma, tendo necessidade, por esse motivo, do
sistema e da garantia de Deus.)
O
Apocalipse triunfou e jamais conseguimos sair do sistema do juízo. “E vi
tronos, e aos que neles se assentaram foi dado o poder de julgar.”[5] O
cristianismo é a glorificação dos fracos. O espírito que transformou Cristo em
“conquistador, todo-poderoso, destruidor”[6] não tem relação alguma com o
Cristo Salvador. O apocalipse é a promessa de poder de julgar os soberanos, uma
operação de reversão da hierarquia: pobres e desvalidos que julgam os
poderosos. Mas a instância de juízo é a mesma, um plano de transcendência e de
organização. Tudo aquilo de onde a ordem emana – a ordem, a realidade e a
verdade – emana desse plano.
O
Apocalipse, em suma, é o livro que revê as razões da dor e do regozijo dos
desvalidos. Se nunca houve uma explicação para a dor, para as destruições, para
as injustiças, as desordens e os desequilíbrios na natureza e na vida, O
Apocalipse é a revelação final dessas causas.
É
o livro final, da culpa e do castigo. A revelação é essa e não outra, os pobres
e miseráveis, aqueles que se abstiveram do prazer do mundo, os que odiaram o
mundo em detrimento do além mundo, são os recebidos como súditos de um reino
único e eterno. Uma manifestação neoplatônica em versão apocalíptica: na santa
cidade tudo se encontra, o mundo da realidade se encontra com as cópias ideais.
Os justos se encontram finalmente com a justiça. A sombra da verdade se acha na
suprema verdade. Um estado ideal teocrático cujo rei é o Cristo soberano,
homem-Deus. Não existe maior emblema do que esse, o homem se encontra com o Seu
modelo.
E
a Bíblia de São Paulo à João de Patmos esconde mais do que dogmas religiosos, é
um livro de filosofia política, de um política de vingança a todos que zombaram
dEle. Uma estranha política cujo Estado não se encontra no mundo, mas que os
Estados do mundo dele se beneficiam.
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