O livro do juízo II
O
texto de João de Patmos descreve a Nova Cidade, a Santa Cidade, a Nova
Jerusalém, que, com seus muros de quatro lados, representaria o próprio
zodíaco. A Arca do concerto, com sua descrição detalhada no livro de Êxodo,
contém os símbolos do zodíaco por inteiro. De maneira que é com os profetas do
Antigo Concerto, sobretudo no Apocalipse, que os símbolos pagãos atingem maior
visibilidade.
A vingança que se espera no Apocalipse
marca o homem do ressentimento. Esse é o estrato judaico. Os inimigos do “povo
escolhido” têm de pagar não apenas com a morte, mas com o sofrimento. Dando um
passo adiante, vê-se o estrato cristão. A vingança é universal; é o próprio
sistema de julgamento que entra em ação no Apocalipse. O povo escolhido não é
mais o “puro sangue” judeu, mas, com São Paulo, a graça foi estendida aos
gentios de todo o mundo: “Aquele que crê e for batizado será salvo”. Desse
modo, o livro é sedimentado e estratificado em três estratos.
Para
Nietzsche seriam “‘esses ‘fracos’, esses homens de ressentimento, que esperam
sua vingança, gozam de uma dureza que converteram em seu proveito, em sua
própria glória, mas que lhe vem de outra parte”. A vingança deveria ser contra os romanos, mas
o Apocalipse invade o céu. As conexões com os estratos referidos, conexões
vivas com os símbolos cósmicos, permitem a maximização de abrangência
universal.
Os
judeus haviam estabelecido essa conexão a partir do que permaneceu neles de
egípcio (foram 430 anos como escravos no Egito) e transformaram tudo na relação
com o Deus único do povo eleito; “os judeus e os cristãos substituirão os
símbolos pelas alegorias. Este mundo pagão, que permanece vivo apesar de tudo,
que continua vivendo poderosamente no fundo de nós”.
João
revive tudo no Apocalipse, mas o faz como um meio de alcançar a dupla vingança:
desfigurar os símbolos, dando-lhes nova versão, e anunciar a vingança contra o
mundo que desdenhou do convite à salvação. Os símbolos falavam dos começos, do
princípio do mundo ou dos mundos. O Apocalipse nos fala do fim do mundo e do
recomeço de um único mundo. Há uma vontade de destruição no Apocalipse, à qual
João chama de Justiça e Santidade. É
a paranoia da fundação de um “Estado mundial” em evidência.
A
aparente ingenuidade desse homem simples (João), em sua visão do mundo, esconde
“os germes de um Estado mundial; a destruição de um mundo habitável (...); a
caça ao inimigo ‘qualquer”. Destruir
qualquer inimigo que não está sob os mandamentos de Deus.
O
programa de João inclui as marcas, “marcas da besta”, na testa dos infiéis,
“marcas na palma da mão” dos seguidores de Cristo. A instauração de um Estado
mundial absoluto sempre requer a destruição em massa dos inimigos da verdade.
Nesse sentido, o programa do Apocalipse não é antigo, mas moderno. E essa
modernidade está marcada na “autoglorificação programada, na instituição da
glória da Nova Jerusalém, na instauração demente de um poder último, judiciário
e moral”.
Esse
estrato de destruição está presente em todo o Antigo Testamento, é judeu. A
ordem vinda de Deus para os reis de Israel sempre foi a destruição total das
cidades inimigas. Não deixar pedra sobre pedra, diziam os profetas, nem
crianças nem animais. Nada que fizesse lembrar a existência de um povo
derrotado. O lago de fogo e enxofre sulfuroso da condenação dos infiéis no
Apocalipse constitui as reminiscências do estrato pagão, um avatar dos elementos da natureza, mas
muito mal usados.
Os. Continua.
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