Máquina de guerra literária
Uma
máquina de guerra é uma questão de vida. É o instinto de sobrevivência que
inventa a máquina de guerra. Sempre que a vida se encontra encurralada dentro
de um sistema fechado, quando situações intoleráveis submetem a vida impedindo
que ela siga a sua meta de expansão, uma maquina de guerra será inventada.
Por
isso é correto afirmar que as máquinas de guerra não derramam sangue e não
matam ninguém. Sendo elas em favor da expansão da vida, toda espécie de violência contra a vida se trona necessariamente inaceitável.
Uma máquina de guerra é uma estratégia politica de engendramentos de fuga – fuga do
morrer. Assim como na natureza os animais inventam seus modos de escapar –
camuflagens, mimetismos e desterritorializações – na vida social os humanos
criam as suas estratégias de sobrevivência.
A
criação de uma máquina de guerra é precedida de uma situação intolerável – o intolerável
é a condição insuportável em que uma relação de poder subjuga a vida dos
indivíduos.
As
peças da máquina de guerra são a linhas de fuga, suas bifurcações, suas
camuflagens e mimeses por onde o combatente se imiscui da opressão que leva a
morte. Não se trata da morte biológica apenas, mas de todas as mortes, àquelas
menos perceptíveis pelos sentidos.
Sempre
que uma potência de vida deixa de ser afirmada, sempre que um indivíduo se
afasta daquilo que pode, existe nisso uma morte. São as sucessivas mortes - pequenos
espaçamentos de não-vida - que conduzem os indivíduos a morte biológica.
Pessoas
morrem todo dia ainda que não tombem fisicamente. Milhares de crianças morrem
em salas-de-aulas insipidas ainda que voltem para casa com suas mochilas nas
costas.
Famílias
inteiras mortas em suas crenças limitantes. Nesse sentido podemos dizer que as
instituições, muitas vezes, fazem morrer. Não há nada mais mortal do que uma organização
de órgãos que submetem a vida numa pirâmide de burocratização – da família aos
espaços sociais mais abertos, como bem diz Foucault.
Muito
provavelmente Kafka seja o escritor que melhor descreve essa realidade. Ele
brinca inventando suas pequenas máquinas guerra. Elabora planos de fuga com seus personagens
que sempre se encontram em situações intoleráveis. Todas as situações em que
Kafka coloca seus personagens são “metáforas da escravidão do homem aos laços
sociais” - da família à repartição pública. Da barata, A metamorfose ao agrimensor
do Castelo, é a mesma condição do
intolerável – uma situação inexplicável se instala na vida dos sujeitos. Todas as
saídas se encontram bloqueadas. O agrimensor nunca encontra as respostas que
precisa para esclarecer sua questão.
Da
mesma forma o senhor “K” nunca soube das razões das investigações e de sua
condenação no Processo. Essas são as
condições intoleráveis em que as vidas dos indivíduos são constantemente
submetidas.
Na
literatura são os personagens que se encontram sem saídas. Mas todos eles são
representações dos indivíduos reais em suas vivencias reais. Na casa, na
igreja, nas relações amorosas, nas repartições burocratizadas estão lançados em
qualquer situação em que o desejo se encontra impedido de afirmação. Kafka
soube como ninguém dizer dessa condição.
Não
há nada mais impotente do que depender de um bando de burocratas que se coloca na
condição de decidir a vida de muitos. Pior, quando o sistema guarda segredos
sobre os passos de cada decisão - em momentos de ditaduras numa sociedade tudo isso se agrava.
Nada
mais intolerável do que um pai/mãe autoritário que submete o desejo dos filhos
ao seu arbítrio - é a batida sentença, "eu pago eu mando", dizem eles.
Nada mais mesquinho e ultrapassado do que as religiões que se reúnem
em comissões para julgar e punir supostos pecados de suas ovelhinhas – a metáfora
da ovelha já constitui um intolerável.
Existe o intolerável das salas-de-aulas, o intolerável
do hospital, o intolerável da repartição pública e o intolerável de dentro de
casa. É a vida que se encontra em riscos de extinção.
Mas quando uma máquina de guerra se instala,
ainda que pequena, é a vida que começa a florescer. A barata de A metamorfose
é a grande escapada do personagem que não suporta mais a tirania da vida
familiar e social. É o personagem Kafka que está sendo salvo do intolerável que
se instala. Toda a literatura de Kafka é a sua máquina de guerra. Para que o
fardo da vida, sob o jugo das arbitrariedades possa ser mais suave, é
necessário estar embriagado como diz Charles Baudelaire em seu Embriagai-vos. “Mas – de quê? De vinho,
de poesia ou de virtude, como achardes melhor”, contanto que vos embriagueis.
No
caso de Kafka, é ele que se embriaga com seus personagens ao denunciar o poder
com ironia e deboche. As situações que Kafka cria para os seus personagens são
a forma dele dizer, “é assim que vejo tudo isso". De forma debochada diz no Processo que a burocracia é uma forma de
enfraquecer e entristecer as pessoas, de impedir que elas cuidem de suas
questões, de afastá-las de suas próprias vidas e de seus interesses, é um meio
cruel de tomar o controle das vidas das pessoas – nada mais cruel e injusto do
que fazer esperar indefinidamente por justiça e ela não vem.
No
atelier do pintor dos magistrados – Titorelli funciona dentro do tribunal – Kafka
mostra que ali funciona mais do que um pintor. Titorelli é também parte do tribunal,
é um apêndice da justiça. Ele pinta os magistrados maiores do que o são e dá o tom
às imagens performáticas do poder. Muitos poderão interpretar que Kafka é um pessimista
depressivo e que, nesse sentido, pode ser perigoso de ser lido.
Mas não é. Os personagens de Kafka não sofrem de um “desejo de auto-aniquilação”, muito
pelo contrário, eles são o desejo de vida do autor. São seus meios de continuar
vivendo. As saídas são suas linhas de fugas inesperadas cujo método é o
deboche.
Não poderia ser mais debochado fazer um homem-barata escondido dentro
da casa de uma família idealista burguesa. Uma máquina de guerra que arranca
risos e, ao mesmo tempo em que denuncia o poder, faz o autor se embriagar de
vida embriagando os leitores onde quer que se encontrem.
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