O impossível do corpo


Não há nada além do corpo, depois de toda nossa capacidade de simbolizá-lo. Depois do símbolo da linguagem só resta o Real do corpo. Esse corpo inteiramente nu, jogando na cama, sem a palavra que diz do corpo além dele mesmo nada seria. Se não olhássemos através dos sentidos que a ele damos, um corpo se mostraria nu e cru, apenas carne.

       O corpo “abandonado” na cama, com suas curvas, seu cheiro, suas entradas, sua pele de textura homogênea, território de relevo sinuoso sempre em fuga, deslocando-se por linhas lisas, nômades, livre e selvagem é o corpo do olhar.

Um corpo deixa-se ser capturado ou nunca será. Nunca se territorializa um corpo, ele foge sempre para mais adiante nos afetos com outros corpos.

       O corpo é intensivo e extensivo, mas o extenso não limita o corpo em sua intensidade. O corpo pode mais do que sua extensão.

O que torna o corpo impossível? É a sua condição de Real irredutível.

       O corpo feminino pode ser acariciado - e o masculino ao seu modo - mordido, sugado, penetrado, sacudido, temperado ao mel ou vinho, bebido ou deliciosamente mastigado.

       Podemos penetrar o corpo e lá permanecer até a exaustão, adormecer assim, com o bico do peito entre os lábios, mordê-los até. Mas nada é suficiente, não é o bastante.

       Se fosse possível, entraríamos de novo por inteiro no corpo. A impossibilidade é justamente esta. O limite Real do corpo. Tudo o que se possa fazer no corpo, com o corpo, ainda não será o bastante.

       Não são as entradas do corpo que mais se deseja - não se sabe que o elemento sutil são as bordas em torno das entradas, o entorno das brechas, morada da libido.

É o atrito delicado - às vezes - que fazem das bordas e dobras o ponto de convergência entre os corpos. Os orifícios do corpo sem as bordas é Real de mais. Seriam os "buracos negros do corpo" que tudo sugaria, mas sem afeto algum, sem gozo nenhum.

Caso não tivessem as bordas da boca – os lábios - e os lábios da vagina, das nádegas em torno do anus tudo se reduziria a buracos sem sentido, orifícios de impossibilidades.

       Pode-se beijar a vagina, colocar a língua dentro dela, mordê-la com leveza, chupá-la e penetrá-la infinitas vezes e - ainda assim - não se atingira suficientemente o corpo. O orgasmo ideal é impossível. Busca-se algo impossível sem saber, o fundo do orifício é um sem fundo, um vazio sem paredes. É impossível que aconteça um dia. Se fosse possível, estaríamos finalmente diante da mais trágica impossibilidade, lá no fundo, por trás do último fundo, o vazio absoluto.

        A procura pelo corpo, o retorno ao corpo é essa impossibilidade. Retornamos ao corpo pela impossibilidade de nos apropriarmos dele, de qualquer um.

       Não é o corpo mesmo - desnudo e cru - que se deseja tanto. É o travestimento simbólico, o imaginário erótico que faz saltar da superfície da pele.

O corpo desejado, sonhado nos sonhos de volúpias de amor, não é ele mesmo, o corpo que se acha tão próximo. O corpo dos desejos é o da alucinação animada pela libido, outro corpo, suplemento do desejo.

        A trama erótica é Impossível sem a fantasia libidinal que reveste o corpo Real. Um corpo Real é só a carne repugnante, de orifícios sem bordas.

       O Real impossível do corpo só é possível no simbolismo da fantasia. Uma bela bunda! Um lindo par de peitos! As coxas torneadas, os braços simétricos, a boca que destila sedução, os olhos que dizem... - tudo segundo o olhar do desejo.

       Além deste olhar o corpo é o Real impossível. É carne sem cor, pele sem textura, inodoro, lábios de pedra fria, olhos sem fulgor.

O corpo nu e cru é o corpo apenas - impossível e insuportável.

       O possível do corpo são os sentidos arrastados à desmensura da libido que incendeia e a fantasia que faz sobrevoar o corpo Real.

       Confabulamos o corpo assim como as crianças confabulam suas estorinhas. Tudo parece simples, a vida só faz sentido - em todos os sentidos - quando nós mesmos criamos sentido. Sem essa "criação de sentidos" tudo seria insuportavelmente Real. Deserto demais.

Comentários

  1. Fantástico!
    Uma relação amorosa tende a cair em desespero justamente quando falta criação nos entornos do corpo.

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  2. Emudecedor !!! As palavras por si só bastam !! Toda relação de desejo se apavora, se não houver esse percurso cheio de curvas desconhecidas a ser explorado chamado CORPO !!!

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  3. O cristianismo de São Paulo abomina esse corpo que deseja. Em toda a Idade Média, os teólogos perseguiram esse corpo, queimaram e torturaram o corpo. Os corpos belos que despertavam desejo eram condenados pela sua beleza - os padres atribuíam um poder demoníaco ao desejo.

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