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Esquizoanálise - conclusão

A esquizoanálise, ao abrir esses portais de virtualidade, tem a finalidade de levar o indivíduo a fazer funcionar o “acontecimento como portador eventual de uma nova constelação de Universos de referência”. [1] É a isso que visa uma intervenção pragmática, ou seja, “à produção de campos de virtualidades, e não apenas polarizada por uma hermenêutica simbólica dirigida à infância”. [2] A prática de uma micropolítica se ocupa do rastreamento das máquinas desejantes que se encontram no meio do nível molar. Encontrar as forças do desejo no funcionamento das máquinas sociais, mapear as forças dentro das instituições, identificar as cristalizações interiorizadas nos indivíduos. Como dizem Deleuze/Guattari: “Trata-se de descobrir quais são as máquinas desejantes de um indivíduo; de que modo funcionam, com que sínteses, com que entusiasmo, com que falhas constitutivas, com que fluxos, com que encadeamentos, com que devir em cada caso”. [3] Para atingir esse ponto, é preciso estar ciente d...

Esquizoanálise VIII

As tentativas frustradas de controlar esses fluxos esquizos é sempre a mesma. Colocar o esquizo no bom lugar onde ele possa falar como todo mundo, repetir o enunciado que passa para o lado das interpretações. Decalquear, manchar o mapa, engastar o desejo em algum lugar previamente pensado. Por isso a esquizoanálise se opõe à psicanálise. Quais são os seus objetivos? Tudo deve começar por uma reversão, uma reversão mais sutil ainda, que permita olhar o outro lado do inconsciente. Se prestarmos atenção ao inconsciente esquizo, já não caberá mais interpretação alguma. Não sobrará um Édipo sequer para ser analisado, tampouco uma estrutura a ser encontrada. Esse não lugar pode ser a terra povoada de eternidade que os xamãs do México Antigo acreditavam se encontrar por toda parte. A eternidade está aqui, ali e acolá. A identidade pessoal que não permite enxergá-la. É também o território a-subjetivo, solo nômade das forças que violentam a consciência e incita o pensamento. Libertar as forç...

Esquizoanálise - VII

Há uma ligação direta entre a máquina e o desejo, “a máquina é desejante e o desejo, maquinado”. [1] A máquina funciona como acessório do desejo, a vértebra de um corpo sem órgãos. É preciso sair do mecanicismo e do vitalismo para se fazer uma verdadeira política de potências. Sair dos fenômenos de massa ou de conjuntos molares, porque tanto um quanto o outro “remetem do exterior um ao outro”. “E, mesmo quando eles se distinguem e se opõem, é apenas como dois sentidos numa mesma direção estatística.” [2] O alvo da esquizoanálise é sair dos organismos como máquinas para alcançar as máquinas nos organismos. Saber como isso funciona no limite entre o anímico e o somático, ou seja, naquilo que Freud percebeu de início. Como dizem Deleuze/Guattari, “na outra direção mais profunda ou intrínseca das multiplicidades, há compenetração, comunicação direta entre os fenômenos moleculares e as singularidades do vivo”. [3] Um retorno a Freud naquilo que pode unir o homem e a natureza, a partir...

Esquizoanálise - VI

A esquizoanálise muda o foco para o outro lado; ela se foca nas regiões microfísicas ou micropsíquicas, lá onde as forças puras podem bifurcar-se. “Aí onde há desejo, isto é, não apenas funcionamento, mas formação e autoprodução.” Desde as formações biológicas, nas quais o vitalismo se fixou, mas não pôde compreender a extensão maquínica até o ponto em que as ligações prévias se encontram. Não é mais uma questão de vitalismo ou mecanicismo. As formações molares, desde a constituição dos tecidos celulares, “têm uma inaptidão fundamental em dar conta de suas formações”. [1] O Anti-Édipo ultrapassa o binômio vitalismo/mecanicismo para dar conta do funcionamento das máquinas. O mecanicismo só pode afirmar que uma máquina funciona segundo a lógica de suas ligações, suas conexões, ordem de posição de suas peças. Mas há algo que forma essas máquinas, que anima suas pulsações, que é subtraído das máquinas pelo mecanicismo, “essa unidade estrutural, segundo a qual se explica o funcionament...

Esquizoanálise - V

Somente o esquizo perfila “linhas de fuga infinitesimais, em lugar das perspectivas de grandes conjuntos.” [1] A esquizoanálise separa os dois grupos, estabelece a diferença entre esses dois tipos de populações: “os grandes conjuntos e as micromultiplicidades”. [2] “Entretanto, os dois tipos são de investimento coletivo.” Todo investimento é coletivo. Os autores lembram que as minorias do âmbito das multiplicidades, o devir-minoritário, se encontram presentes tanto nas minorias quanto nas maiorias representativas. Em nossa análise, os dois termos têm relação com diferentes forças políticas. E, por fim, a psiquiatria ainda atribuiu à linha que excede e salta para fora uma classificação nosográfica. Ou seja, esquizofrenia como entidade clínica. Tudo isso pode ser comprovado para fins de diagnóstico clínico e medicalização, mas ficar em terreno clínico não explica o conjunto das inter-relações políticas que é o nosso trabalho. A esquizoanálise vai mais longe nesse aspecto: procura...

Esquizoanálise IV

A esquizoanálise pretende extrair a potência esquizofrênica do esquizofrênico sem se perder em suas linhas que se enroscam. No Anti-Édipo , a esquizoanálise é tomada do ponto de vista de uma clínica universal. Então, como análise das sociedades, deve-se pensar a história não no sentido dos grandes personagens e dos fatos históricos, mas como análise das vicissitudes e dos arranjos e rearranjos das forças e dos investimentos do desejo. Como cada sociedade cuidou da codificação dos fluxos do desejo, todas têm sua formação sobre seu corpo pleno, onde se rebate. Tudo tem seu limite no corpo pleno sem órgãos. Deleuze/Guattari se remetem à física para explicar os dois modos de formação da realidade – molar e molecular – que se assentam sobre o corpo sem órgãos; são duas sínteses que saltam para a realidade social e unem homem e natureza. Do corpo pleno sem órgãos, podemos dizer que há duas possibilidades: conjuntos molares e elementos moleculares. Dentro desses dois sistemas, há duas vi...

Esquizoanálise III

A leitura psicanalítica sobre a “proibição” desenvolveu duas falsas crenças: a primeira é o fato de se criar, no limite, “uma matriz ou uma origem”. [1] O que nos leva a pensar que a sociedade primitiva vivia sob ligações incestuosas generalizadas antes de haver a proibição, o que faz da psicanálise uma tese evolucionista. E, em segundo lugar, “fazer do limite uma função estruturante”, [2] como se entre o desejo e a lei houvesse uma relação fundamental por resguardar a transgressão. Nem uma coisa nem outra: o mito do incesto fala da emergência de uma ordem que ele explica e conta, como se fosse a verdadeira história da humanidade. Trata-se, em verdade, da passagem de um estado de organização dito primitivo, da consanguinidade, para o estado, dito civilizado, da cultura. De certa forma, o texto Totem e Tabu é um apanhado evolucionista, pois trata de uma família de animais. Instituir uma lei de separação pelo incesto significa arrancar os indivíduos de um estado de natureza com sua...