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Eu te amo

O termo que se tornou popular, “Freud explica”, deveria incluir outro mais abrangente, “Lacan explica Freud”. O que faz com que esses dois pensadores ocupem um lugar tão importante na história do pensamento? É que eles realmente explicaram ou chegaram muito perto de explicar tudo o que se passa nos escombros de nossa mente. Vejamos por exemplo a expressão muito comum entre o amantes, o “eu te amo”. Seguindo o pensamento dos dois, o que o indivíduo está dizendo com o “eu te amo”? Começamos desvendado o enigma do “Eu que pensa amar” nas alturas de um apaixonamento. O sujeito faz de si uma auto-imagem ideal, aquilo que ele gostaria de ser e, ao mesmo tempo, como gostaria que os outros o percebessem. Seria a imagem que o indivíduo usa para impressionar o outro. Esse outro é o que vigia e motiva o indivíduo a dar tudo de si para o impressionar. Concluímos que o “Eu ideal” é imaginário. Mas o indivíduo em questão acredita que ele é isso que imagina. Essa imagem nasce da relação com um out...

Justiça cega [João, 8: 1 – 11]

No texto da referida “mulher adúltera” fica evidente a figura de Artemis [deusa da justiça – Diké ] com uma venda nos olhos, uma analogia à cegueira da justiça. Não do princípio de imparcialidade desta, mas da patologia da mesma. O que é justiça? O que é justo? É dar a cada um aquilo que lhe pertence, seja um bem material, seja uma atribuição na justa medida, como demonstrou Aristóteles na metáfora da régua de chumbo, um instrumento métrico que pode fazer os contornos da matéria medida. No caso bíblico, trata-se de uma mulher pega em flagrante adultério, baseada na lei mosaica do Antigo Testamento que condenava os adúlteros a morrer sob pedradas. Toda lei é cega, por si só não pode ser contextualizada. É a fria letra da prerrogativa legal. A mulher teria de ser morta a pedradas, como ainda acontece em algumas teocracias fundamentalistas. A condenada deve ser enterrada numa praça pública deixando-lhe apenas a cabeça acima do solo para receber, indefesa, os golpes das pedradas da turba d...

O filho pródigo (Lucas, 15: 11 – 32)

Existe outra maneira de ler a parábola do “Filho Pródigo”, além da interpretação que se fez dela?   Sob   outra perspectiva, o centro da questão pode não ser o de uma moral de servidão, como a cristandade interpretou, mas de uma Ética de afirmação. O que importa não é o filho que fica, mas o filho que vai. Os filhos existem para ir mesmo, e muitas vezes a ida é traumática, sem planejamento e sem acordo entre as partes, quando é assim, são os pais que ficam sofrendo em casa e o filho vai cheio de culpa. O que os pais não entendem é que eles são apenas meios para os filhos entrarem no mundo. São meios para que a ida para o mundo seja a menos traumática possível.   O filho pródigo é um forte, ele está enfrentando toda a concepção de família, de igreja e de mundo. Uma solidão de uma escolha tão radical para abrir caminhos no mundo não foi possível ao filho que fica em casa. Mas é o filho pródigo que vai abrir caminhos para o irmão sair mais tarde. Nada aconteceria no mundo se...

Filosofia cristã

Existe uma filosofia cristã? Pode-se dizer que existem filósofos cristãos e teólogos com um pensamento filosófico: São Tomás de Aquino, Dun Scott, Blaise Pascal, Kierkegaard, dentre muitos outros. Esses, quando filosofando, fazem refletir o compromisso que têm em relação às suas crenças, o que pode comprometer em certo sentido o exercício do pensamento livre. Vamos tomar um em especial que não é considerado filósofo, mas criou um sistema que, assim como Platão, dominou o ocidente,   São Paulo dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas. Como filósofo, ele tem as prerrogativas de um Platão traduzido para o povo, ou seja, aquilo que Platão teoriza, no seu motivo de seleção das cópias bem fundadas (teoria das Ideias), tem uma forte semelhança com a cristologia paulina. Platão com as Ideias ícones, São Paulo com Cristo, o Modelo.   Ideias bem fundadas, Cristo o fundamento da Lei. Platão quer distinguir a essência e a aparência, o inteligível e o sensível, a ideia e a imagem f...

Eu sei o que você está sentindo...

Dizemos isso procurando ser (sim)páticos em relação ao outro, mas na verdade, nunca saberemos o que o outro está sentindo, somos limitados por nossa condição reduzida a nós mesmos. A idéia da empatia só pode ser afirmada plenamente nos termos de uma ficção, como a que aparece nos dois filmes: "Energia Pura" e "A espera de um milagre". Nesses casos, os personagens seguram firmemente o outro para que sinta e veja tudo o que se passa na vida do outro, tudo que experimenta em uma dada situação:  um animal que está sendo abatido covardemente e a verdadeira história de um crime violento não resolvido. Nos dois casos, ao entrar em contato com a agonia do outro, os indivíduos percebem a impossibilidade de sentir o sentimento do outro, impossíbilidade de não poder se deslocar de si mesmo e a impossibilidade do desejo de entrar na situação alheia e dolorosa. São situações da experiência limite de morrer. O afeto de morte é insuportável no corpo de quem não está morrendo. Mor...

Caminho

Já foi dito em algum lugar, “caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar...”. As caminhadas e os caminhos são menos os espaços e os deslocamentos e mais a intensidade que se experimenta ao caminhar. Mesmo quando se trata dos grandes caminhos que vão de São Tiago de Compostela ao Caminho de Abraão. São longos trajetos, percorridos por grandes homens que emprestam seus nomes ao caminho. Caminhadas épicas onde o que importa não é tanto o trajeto percorrido, mas sim os acontecimentos que delas decorrem. Ninguém precisa se orgulhar de ter feito essa ou aquela caminhada, esse orgulho inútil já denuncia a futilidade da experiência.  Não faz nenhum sentido a apropriação da indústria do turismo em relação às “caminhadas sagradas”, o sagrado não é o caminho, e muito menos sagrado é o passeio entre esses caminhos percorridos. É possível que a maioria das pessoas não experimentem nada ao pisarem aquele chão de terra seca. Daí, a trajetória ser menos espiritual do que o aconteci...

Amor ao próximo possível

Vimos que a impossibilidade do amor ao próximo consiste da intolerância radical do ser humano a qualquer alteridade vinda por parte do próximo. Não suportamos o excesso de gozo do próximo, não aceitamos conviver com a diferença do próximo. É tarefa da moral de rebanho erradicar as diferenças que escapam ao ponto de tornar o “próximo” o mais próximo possível a fim de torná-lo semelhante. O que confirma a impossibilidade de amar o próximo ainda vivo. O amor ao próximo só é possível com o “próximo morto”, depois de erradicar a diferença e proclamada a fantasia do rebanho, quando a alteridade estiver silenciada no interior do próximo, então se obtém a forma de “amor” mais condicional existente, “amor de rebanho”. “Amo-te por seres um como eu mesmo sou”.  O silêncio do rebanho é para evitar o confronto com a verdade traumática, do fluxo louco que não se pode registrar e codificar. Verifica-se uma longa sucessão de medidas pedagógicas e disciplinares para se confirmar um rebanho: uma ...