Filosofia cristã

Existe uma filosofia cristã? Pode-se dizer que existem filósofos cristãos e teólogos com um pensamento filosófico: São Tomás de Aquino, Dun Scott, Blaise Pascal, Kierkegaard, dentre muitos outros. Esses, quando filosofando, fazem refletir o compromisso que têm em relação às suas crenças, o que pode comprometer em certo sentido o exercício do pensamento livre. Vamos tomar um em especial que não é considerado filósofo, mas criou um sistema que, assim como Platão, dominou o ocidente,  São Paulo dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas.
Como filósofo, ele tem as prerrogativas de um Platão traduzido para o povo, ou seja, aquilo que Platão teoriza, no seu motivo de seleção das cópias bem fundadas (teoria das Ideias), tem uma forte semelhança com a cristologia paulina. Platão com as Ideias ícones, São Paulo com Cristo, o Modelo.  Ideias bem fundadas, Cristo o fundamento da Lei. Platão quer distinguir a essência e a aparência, o inteligível e o sensível, a ideia e a imagem falsificada, o original e a cópia, o modelo ideal e o simulacro falsificante. Com essa teoria das similitudes, Platão funda um sistema de juízo: submeter as cópias às imagens ícones para separar as falsas cópias das cópias semelhantes. Ele quer estabelecer modelos na terra baseados nos Ícones do mundo das Ideias.
São Paulo faz o contrário, o modelo se encontra já na Terra e se desloca para o Céu. Ele faz uma reversão platônica pela metade, mantém a lógica da seleção e estabelece um juízo, mas introduz um elemento novo, a graça de Cristo, o modelo ideal. Se tomarmos o sistema paulino como uma filosofia de inspiração platônica, ele seria um platonismo prático. As abstrações platônicas carecem da imortalidade da alma. As Ideias ícones de Platão subsistem à memória das almas daqueles que, depois de morrerem, entraram em contato com o mundo dos modelos ideais e que, ao retornarem ao mundo sensível (Terra), trazem-nas consigo em forma de reminiscências.
O apóstolo é pratico no sentido de que não depende da imortalidade da alma. Cristo é o Ser imortal na Terra, Aquele que subsume a imortalidade dos que nEle se assemelham. Nos Atos dos Apóstolos, Cristo é o ressuscitado que sobe ao Céu. Portanto, o Modelo da cristologia paulina se encontra na Terra na forma humana, anda entre os homens, sente dor, tem as mesmas necessidades dos humanos e conhece o desespero humano da finitude e do desamparo, mas é, ao mesmo tempo divino.
A questão é não recair na moral do juízo que julga cópias malformadas em relação aos modelos. A cristologia fracassa na cristandade por esse motivo vil, fazer do Cristo um aglutinador da alma coletiva: pregar a submissão e a renúncia da vontade, submeter a vida à Ideia igualmente platônica. Mas o cristianismo do Cristo triunfaria se tão somente a graça subsumisse a salvação, não do futuro que nunca chega numa base mercantil de troca.
Fazer das Boas Novas uma velha triste e choramingueira. Fazer da vontade humana uma vontade de nada, para, depois, vender o bálsamo. Mas salvação no ato de afirmar a vontade de viver imediatamente na terra, e que essa terra seja definitivamente a terra sempre porvir. Não uma terra de lamentação, não uma vida de nojo na terra, mas a terra mesma da boa nova. Não o Cristo eternamente pendendo da cruz, mas o Cristo que na solidão de seus diálogos (Nicodemos, a Samaritana, Zaqueu...) esboça ideias de afirmação da vida. Ele mostra que a vida é antes de qualquer ideia.
Como diria Nietzsche, a vida potencializa as ideias e as ideias devem afirmar a vida. Uma ideia não pode mandar na vida, não pode submeter a vida a um julgamento. Se São Paulo não é filósofo, no mínimo o seu sistema tem consequências filosóficas. Se Platão não é cristão, no mínimo suas ideias se presentificam na cristandade. Trata-se de tomar Platão com seus pressupostos teológicos e, ao mesmo tempo, perceber o que existe de filosófico no Apóstolo dos gentios. No meu entender, um e outro acabam por criar uma linha indiscernível entre os dois saberes. Um cristianismo com ares de uma filosofia suspeita e uma filosofia que serve a um cristianismo de Estado.

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