Justiça cega [João, 8: 1 – 11]

No texto da referida “mulher adúltera” fica evidente a figura de Artemis [deusa da justiça – Diké] com uma venda nos olhos, uma analogia à cegueira da justiça. Não do princípio de imparcialidade desta, mas da patologia da mesma. O que é justiça? O que é justo? É dar a cada um aquilo que lhe pertence, seja um bem material, seja uma atribuição na justa medida, como demonstrou Aristóteles na metáfora da régua de chumbo, um instrumento métrico que pode fazer os contornos da matéria medida. No caso bíblico, trata-se de uma mulher pega em flagrante adultério, baseada na lei mosaica do Antigo Testamento que condenava os adúlteros a morrer sob pedradas.
Toda lei é cega, por si só não pode ser contextualizada. É a fria letra da prerrogativa legal. A mulher teria de ser morta a pedradas, como ainda acontece em algumas teocracias fundamentalistas. A condenada deve ser enterrada numa praça pública deixando-lhe apenas a cabeça acima do solo para receber, indefesa, os golpes das pedradas da turba desejosa de sangue. Entre os que atiram as pedras, também se encontram mulheres. Todos são possuídos pelo desejo cego de fazer justiça, querem ser o autor da pedrada fatal. Tudo em nome da justiça divina. É preciso ter bons advogados e excelentes juízes para interpretar aquilo que o legislador tentou dizer com a lei.
A mulher de nosso texto foi levada pelos seus acusadores ao melhor dos advogados de todos os tempos. Não porque eles desejassem a justiça, mas porque desejavam a injustiça contra Ele mesmo, queriam pegá-lo numa contradição: contra a lei de Moisés ou contra a presença romana na Judéia. Não se tratava da justiça em favor de uma mulher. Era uma turba de líderes religiosos. A leitura que se faz do texto bíblico passa por fora dessa realidade, que os autores quiseram mostrar. 
 O contexto é de uma luta política. A Bíblia deveria ser lida como um livro de filosofia, o quadro seria mais bem compreendido. Se não se encontrasse em contextos de mudanças, a mulher adúltera seria mais uma inocente a ser apedrejada. O “advogado” sabiamente desmobiliza a acusação no sétimo versículo: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.
O verdadeiro sentido do justo é, para que alguém se arrogue o direito de condenar o outro, é necessário que seja ele próprio irrepreensível. Além do mais, a lei dizia que, os adúlteros, pegos no flagrante ato, deveriam ser apedrejados, o que tornava impossível o crime de adultério de um só. Mas os que acusavam só levavam a mulher. Todos estavam cegos, de ódio e paixão religiosa. Na turba zelosa e fundamentalista se cumpre o que diz Blaise Pascal: “os homens nunca fazem o mal tão completamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa”.

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