O filho pródigo (Lucas, 15: 11 – 32)

Existe outra maneira de ler a parábola do “Filho Pródigo”, além da interpretação que se fez dela?  Sob  outra perspectiva, o centro da questão pode não ser o de uma moral de servidão, como a cristandade interpretou, mas de uma Ética de afirmação. O que importa não é o filho que fica, mas o filho que vai. Os filhos existem para ir mesmo, e muitas vezes a ida é traumática, sem planejamento e sem acordo entre as partes, quando é assim, são os pais que ficam sofrendo em casa e o filho vai cheio de culpa. O que os pais não entendem é que eles são apenas meios para os filhos entrarem no mundo. São meios para que a ida para o mundo seja a menos traumática possível.  
O filho pródigo é um forte, ele está enfrentando toda a concepção de família, de igreja e de mundo. Uma solidão de uma escolha tão radical para abrir caminhos no mundo não foi possível ao filho que fica em casa. Mas é o filho pródigo que vai abrir caminhos para o irmão sair mais tarde. Nada aconteceria no mundo se só existisse essa pulsão de conservação que nos leva a buscar uma zona confortável sob a lógica da servidão e da renuncia do desejo de expansão.
Essa é a posição do filho que fica. É preciso ir embora seguindo a seta do tempo, mesmo que se “quebre a cara” no caminho. O filho que fica é a própria pulsão de conservação, com ele tudo permaneceria o mesmo. O filho pródigo é a pulsão de morte que irrompe, excesso de vida impossível de ser contida nos parâmetros da família. Pulsão de morte não é negatividade no sentido comum do termo. É vida em excesso num corpo que ficou demasiado pequeno para comportar a expansão de uma vida. É preciso expandir, crescer e subir no limite do que o corpo pode.
Nem família nem igreja podem conter esse fenômeno de vida. O pai do filho pródigo cumpre belamente o seu papel.  Quando o filho precisa voltar - por razões óbvias - ele o recebe com festa, esse é o papel do amor. É como se dissesse: “A vida é experimentação”. Nesse momento, aparece a verdadeira face do filho acomodado, ele tem ciúmes do tratamento dispensado ao irmão transgressor. Ele não sabe que as regras existem para serem transgredidas? É preciso ter coragem para transgredir. Foi assim em todos os momentos de quebra de paradigmas.
O mundo inteiro muda numa transgressão. Como demonstraram Nicolau Copérnico, Charles Darwin e Sigmund Freud sucessivamente: a terra não é o centro do universo; o homem não é tão bom como parece ser; desloca-se o homem do centro de seu narcisismo e torna-se obrigatório admitir que não se é determinado pela razão, mas pelo desejo inconsciente. Por isso, ainda que, por razões de pura presunção, não se admita que os fortes sejam os transgressores que saem na frente, eles são aqueles que fazem o mundo mudar. Por isso, todos os que impõem mudanças no mundo são “pródigos”.

Comentários

  1. Belíssimo!
    Mas há ainda, dentro de alguns de nós, o filho pródigo e o filho acomodado. E se permitirmos, o pródigo, que há em nós, abre caminho para um caminhar transgressor do acomodado, que, a partir desse momento, deixa de ser acomodado. É o resgate da potência, intrínseca à natureza humana. São momentos, possibilidades.
    Cristina

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  2. São as duas forças, pulsão de conservação e pulsão criadora (thanatos e Eros). A pulsão de conservação (Eros)deve estar à serviço da pulsão criadora.

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  3. Levando em consideração que não há sentido nesse indefinido real real, porque afirmar que é necessário submeter uma pulsão a outra? ou ainda que é preciso crescer enquanto potencia de vida, se não há sentido "absoluto" que assim determine?
    Parece mais um script do que deve ser realizado.
    Leandro

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  4. A ausencia de sentido não é uma negatividade, é condição de possibilidades. Nem mesmo as pulsões se associam, mas se deflagram. Não creio que seja a submissão de uma pulsão a outra, isso nem mesmo seria possível já que são forças se relacionando. Mas as formas definidas no tempo sofrem a ação desse cedendo lugar a outras formas não definidas ainda. É uma pulsão que quer a permanencia, mas que deixa-se mover por outra seguindo adiante. Movimento de descontrução e reconstrução contínuo.

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